O esporte, em sua essência mais pura, nunca se restringiu a disputas de performances ou de placares. Os grandes eventos internacionais, portanto, carregam a potência de impulsionar mudanças sociais, culturais e até estruturais de nações. Atuante no calendário esportivo mundial, em 2027 o Brasil tem a oportunidade de transformar uma competição em marco na luta contra uma de suas maiores chagas: a violência contra a mulher. Escolhido para receber a Copa do Mundo Feminina da Fifa, entre 24 de junho e 25 de julho, o país não assume somente a responsabilidade de sediar os jogos. Muito mais do que a logística, abraça, sobretudo, a urgência de fazer desse megaevento um acontecimento na promoção dos direitos femininos.
Historicamente, o futebol brasileiro foi moldado sob forte estrutura patriarcal e excludente. Durante décadas, as mulheres enfrentaram não apenas o preconceito arraigado, o descrédito geral, a falta de investimentos e o descaso institucional, mas também a proibição legal. Por muito tempo, o simples fato de pisar nos gramados representou um ato de resistência. Romper essas barreiras exigiu coragem e persistência que, inúmeras vezes, ultrapassaram os limites dos campos.
Diante disso, a relevância de ser palco de um torneio feminino global reside também na capacidade de ampliar vozes e dar visibilidade à causa. Os estádios cheios, as transmissões televisivas e a força do engajamento digital colocam as atletas em uma vitrine sem fronteiras, onde elas podem mostrar autonomia, liderança e competência. No contexto da busca por igualdade, respeito e direito à vida, quando uma mulher ocupa posição de excelência o machismo estrutural sofre um abalo – e essa representatividade legítima desafia parte da perversidade que alimenta a cultura do preconceito e da violência de gênero.
Em 2025, o Brasil registrou o número alarmante de 1.568 vítimas de feminicídio, o que representou um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. É a maior marca desde a promulgação da lei, em 2015, e equivale a uma média de 4 mulheres assassinadas por dia. Para usar a preparação e a realização do Mundial como instrumentos de combate a essa realidade cruel, é preciso estabelecer, desde já, um compromisso ativo entre poder público, entidades e sociedade. Usar todo o alcance do evento para fortalecer políticas de proteção, criar campanhas de conscientização em massa contra discriminação e assédio, ampliar e conectar as redes de atendimento é o básico nesse contexto.
A partir de agora, as arenas esportivas precisam se consolidar como territórios seguros e, principalmente, servir de exemplo e inspiração. As meninas que hoje veem mulheres brilharem nos campos absorvem a mensagem de empoderamento e autovalorização, aprendendo que seus corpos e suas escolhas pertencem exclusivamente a elas.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Na Copa Feminina, o objetivo não pode ficar restrito à conquista do título – o que, sem dúvida, as jogadoras têm plena condição de garantir. Para as brasileiras e os brasileiros, o sucesso total será atingido se o país conseguir transformar a competição internacional em uma herança de respeito, cidadania e garantia de segurança para as mulheres do Brasil e do mundo.