O Air Force One é mais do que um avião. É o símbolo ambulante da onipotência norte-americana, a afirmação de que o poder dos Estados Unidos viaja com seu presidente, a qualquer hora, em qualquer lugar, sem precisar se esconder. Proteger essa presença em viagens internacionais é uma das operações mais complexas da inteligência de Estado: envolve anos de planejamento, dezenas de agências e um nível de coordenação que não admite improviso. Na Turquia, o presidente se escondeu. E o improviso ficou evidente para o mundo inteiro.


O jornal "The Washington Post" revelou que Trump deixou a cúpula da Otan, na Turquia, escondido em um caminhão de catering para embarcar furtivamente em um jato militar secundário. A encenação foi elaborada: Trump subiu publicamente as escadas do Boeing VC-25A, o modelo tradicional do Air Force One, saiu por um acesso oculto, entrou no caminhão e foi levado a um avião militar menor. O VC-25A, com jornalistas e parte do estafe a bordo, seguiu como isca. Recorrer a táticas de despiste é um expediente válido nos protocolos de inteligência estatal, especialmente diante de ameaças críveis de assassinato orquestradas pelo Irã. Ocorre que transformar o próprio estafe da Casa Branca e dezenas de jornalistas credenciados em iscas vivas de um possível ataque ultrapassa qualquer limite de racionalidade tática. É uma decisão que adentra o pântano do absurdo e da irresponsabilidade institucional.


O episódio desenterra ainda um problema diplomático e de infraestrutura profundamente embaraçoso: a vulnerabilidade do recém-incorporado Boeing 747-8, presente do Catar à frota presidencial. Trump havia chegado à Turquia nessa aeronave, mas optou por não usá-la nem como isca – sinal claro de desconfiança no próprio equipamento. Se a nova aeronave não possui as contramedidas defensivas básicas para garantir a integridade do chefe de Estado em zonas quentes, sua aceitação precipitada configura um erro crasso e uma diplomacia de vaidades que se sobrepõe à segurança nacional.


Historicamente, o Air Force One sempre operou como o maior símbolo em movimento de projeção de poder e segurança inexpugnável. O cenário visto nas pistas de Ancara entregou o exato oposto. A decisão de encenar um embarque triunfal para as câmeras enquanto o presidente fugia pelos fundos quebra o pacto elementar de confiança civil-militar. Sob o prisma do pragmatismo, levanta-se uma questão inadiável: se as agências de inteligência avaliaram que o risco no espaço aéreo próximo ao Oriente Médio era tão agudo a ponto de exigir uma fuga sigilosa, a viagem presidencial sequer deveria ter sido concretizada.


Insistir em manter a normalidade de uma agenda internacional sob risco extremo não traduz força, e sim, revela vulnerabilidade camuflada de bravata. Quando a maior superpotência do planeta precisa contrabandear seu próprio comandante para escapar de retaliações, o recado de instabilidade reverbera por toda a comunidade internacional. Quem paga o preço dessa imprevisibilidade não são os gabinetes blindados de Washington, mas as populações que vivem espremidas pelas consequências econômicas, inflacionárias e bélicas das rusgas entre Washington e Teerã.

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O Estado americano deve à sua população e ao mundo uma revisão pragmática e definitiva de seus protocolos. Não cabem comemorações por uma fuga bem-sucedida. Um país que precisa contrabandear seu líder sem recorrer ao sacrifício cego de civis perde não apenas a previsibilidade sobre seus passos, mas a autoridade para ditar as regras do jogo. O teatro no asfalto turco é o retrato de um gigante que, ao tentar despistar seus inimigos, expôs a quebra de seu próprio controle.

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