O papa Leão XIV, na Carta Encíclica Magnifica Humanitas, retoma e alinha pontos importantes quanto à participação e corresponsabilidade da Igreja Católica na construção de uma sociedade justa e solidária. Uma contribuição decisiva e primordial que não se efetiva por meio da política partidária: a Igreja Católica, presente no mundo inteiro, é sinal de unidade para toda a família humana. Assim, insere-se e atua para, educativamente, auxiliar a humanidade a superar essa babel contemporânea. A Igreja, reconhecendo os desafios atuais, exercita sua vocação essencial a partir da escuta, do diálogo, sempre a serviço da vida. Tem relevante papel na vida comum das pessoas e, ao mesmo tempo, responsabilidades na construção das relações sociais. A missão da Igreja não ignora as forças que moldam a sociedade, mas, sobretudo, participa de modo ativo e incidente nos acontecimentos do mundo, não se exime de dar a sua própria contribuição diante da meta de se edificar uma sociedade justa e fraterna.
O papa Leão XIV lembra seu predecessor, o papa Francisco, que acentuava a dimensão histórica da missão da Igreja. Conforme sublinhava o papa Francisco, ninguém pode exigir que a religião seja relegada ao santuário da vida pessoal, sem influência na vida social e nacional, sem preocupação com a solidez das instituições civis, sem o direito de opinar sobre acontecimentos que afetam a sociedade. O anúncio do Evangelho, por mandato de Jesus, esposo da Igreja, incide nas circunstâncias concretas da vida cotidiana, reconhecendo que cada realidade terrena tem singularidades em suas características e ordenamentos. As realidades terrenas têm, pois, identidade própria, que não pode ser desvirtuada. Respeitando singularidades, a Igreja se faz presente para ajudar e incrementar processos de restauração do ser humano.
As verdades fundamentais que alicerçam a missão da Igreja podem e devem contribuir na interpretação da realidade, resgatando valores e sentidos inegociáveis. Um exemplo concreto está na firmeza com que a Igreja defende e promove a dignidade de cada pessoa, a edificação de comunidades coesas na busca do bem de todos, prioridade e compromisso. Sem subjugar o mundo, a Igreja caminha com a humanidade para que a promessa de justiça e paz, sustentada pelo Espírito Santo, se realize nos empreendimentos da civilização contemporânea, conforme sublinha o papa Leão. Oportuno lembrar o que a Igreja frisou no Concílio Vaticano II: o reconhecimento de que Deus defende a liberdade de homens e mulheres no desenrolar da história. Trata-se de um fundamento para que se reconheça a distinção entre política e comunidade eclesial, enfatizando que cada um desses campos deve atuar com plena autonomia.
O papel e o lugar das realidades sociopolíticas recebem reconhecimento da Igreja quando promovem o bem-estar das pessoas e fortalecem o tecido social. Esse reconhecimento e as contribuições da comunidade eclesial não se misturam e jamais assumem funções que deveriam ser exclusivas do Estado. Nesse sentido, a Igreja preza e incentiva aqueles que servem ao bem comum, com lúcido reconhecimento da responsabilidade que as instituições civis exercem na sociedade. Buscando contribuir com o bem comum, à luz da fé que professa, a Igreja é solidária e se une aos sofredores, na condição de Igreja Samaritana. Debruça-se sobre as feridas da humanidade sem a pretensão de incorporar, para si, responsabilidades institucionais próprias da comunidade civil: não se misturam e nem se substituem as competências específicas das esferas eclesial e política.
Na Igreja, há uma escuta da realidade que não se esgota na leitura sociológica, para avançar a partir de um adequado discernimento espiritual. No horizonte do Concílio Vaticano II, o papa Leão XIV lembra que o Povo de Deus, guiado pelo Espírito Santo, reconhece nas transformações sociais e culturais, tanto os sinais da presença de Cristo, bem como aquilo que obscurece a face do Mestre. A verdade revelada em Jesus é núcleo e critério na orientação de escolhas concretas, inspirando conversão pessoal e comunitária. São sinais dessa conversão as reformas estruturais capazes de qualificar a sociedade. Aqueles que promovem essas reestruturações oferecem vivo testemunho de fé no exercício da vida pública. O papa acrescenta que a Igreja dedica reverência a todos os que buscam, sinceramente, a verdade, a bondade e a beleza, considerados como companheiros de caminhada da Igreja, seus preciosos aliados.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
A jornada da Igreja é iluminada e alimentada pela Palavra de Deus, seu anúncio e testemunho, criando condições de interlocução com diferentes segmentos sociais, sem buscar colisões. O Evangelho é, na jornada da Igreja, uma preciosa lupa que permite identificar tudo que promove o dom sagrado da vida humana. Por meio do diálogo entre o Evangelho e diferentes saberes humanos, a Igreja desenvolveu sua Doutrina Social, um grande patrimônio com força de diálogo, interpretação e indicação de soluções que ultrapassam aspectos meramente técnicos, para alcançar um horizonte ético inspirador, com força para ajudar a sociedade na solução de problemas, na correção de rotas. Assim, ensina o papa Leão XIV, a Doutrina Social da Igreja, respeitando o papel da política e das instituições, oferece elementos indispensáveis para que se reconheça e se promova tudo que esteja a serviço da dignidade das pessoas, da vitalidade das comunidades e do bem comum. Os cidadãos, também aqueles que submetem seus nomes ao sufrágio nas urnas e as autoridades devem buscar conhecer a Doutrina Social, rico fruto da Igreja em jornada, que busca efetivar, no mundo, o Reino de Deus.