GIORDANIA TAVARES - Executiva graduada em administração
Quando se fala em adaptação às mudanças climáticas, é comum pensar primeiro em agricultura, energia, recursos hídricos e logística. Mas existe outro ponto que merece atenção: como manter as operações industriais funcionando diante de eventos climáticos extremos? O questionamento ganha força diante da previsão de que o El Niño permaneça até pelo menos o início de 2027. Segundo o Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em conjunto com outros órgãos federais, há 81% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte, com possíveis impactos sobre chuvas, temperaturas e ocorrência de eventos extremos no país.
Para a indústria, o impacto de um cenário como esse não está apenas nas consequências mais evidentes, como alagamentos ou interrupções logísticas. Mudanças de temperatura, aumento da umidade, ventos mais fortes e maior entrada de poeira também podem afetar diretamente a rotina das fábricas. Em setores como alimentício, farmacêutico, químico, cosmético e eletrônico, nos quais o controle do ambiente é fundamental, essas alterações podem comprometer matérias-primas, produtos, equipamentos e processos. A umidade excessiva, por exemplo, pode favorecer corrosão, proliferação de fungos e alterações na qualidade de determinados produtos, enquanto partículas externas podem prejudicar equipamentos e aumentar os riscos de contaminação.
É justamente nesse ponto que a infraestrutura passa a ter um papel estratégico na adaptação climática. Uma porta industrial, por exemplo, não deve ser vista apenas como um acesso entre dois ambientes, mas como parte do sistema de proteção da operação. Modelos adequados para cada aplicação podem ajudar a reduzir o tempo de abertura de áreas climatizadas, limitar a entrada de poeira e umidade e contribuir para a manutenção de condições mais estáveis em ambientes que exigem controle de temperatura, pressão ou higiene. O mesmo raciocínio vale para docas, câmaras frias, salas limpas e áreas de produção, quanto maior a exposição ao ambiente externo, maior a necessidade de pensar em soluções que preservem as condições internas.
Essa preocupação também está relacionada à continuidade dos negócios. Em uma indústria, uma interrupção provocada por um equipamento danificado, uma contaminação ou uma alteração nas condições de produção pode gerar efeitos em cadeia, desde manutenção e descarte de produtos até atrasos nas entregas e perdas financeiras. Por isso, preparar a infraestrutura não significa apenas reagir quando um evento extremo acontece, mas antecipar vulnerabilidades e reduzir os pontos de exposição da operação. Avaliar circulação de pessoas e materiais, controle de temperatura e umidade, vedação de ambientes e proteção das áreas de carga e descarga devem fazer parte desse planejamento.
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O El Niño pode ser um alerta para que a indústria olhe para a adaptação climática de forma mais ampla. Não se trata de prever exatamente quando ou onde ocorrerá um evento extremo, mas de entender quais partes da operação são mais vulneráveis e investir em resiliência antes que o problema apareça. Em um cenário de maior instabilidade climática, estar preparado também significa proteger o ambiente interno daquilo que acontece do lado de fora, e garantir que a produção continue funcionando mesmo quando as condições externas mudam.