Governos recém-empossados não escolhem suas primeiras crises. Elas chegam antes que os gabinetes estejam montados, antes que as equipes estejam treinadas, antes que qualquer planejamento faça sentido. Foi assim que o novo governo colombiano do presidente Abelardo de la Espriella se viu, em seus primeiros dias de mandato, diante de um terremoto devastador e de uma pergunta que o desastre sempre faz: quem vai ajudar?
Em momentos de catástrofe humanitária, a cooperação internacional tem a obrigação pragmática de se sobrepor a qualquer divergência ideológica. O Brasil compreendeu essa urgência e agiu com rapidez ao oferecer assistência humanitária a Bogotá, estabelecendo o padrão mínimo de responsabilidade regional, mesmo com diferenças políticas profundas entre o governo federal e o novo governo colombiano. A magnitude da tragédia, porém, demanda uma mobilização estrutural que vai muito além do envio das primeiras aeronaves de resgate, e é justamente aí que o tabuleiro geopolítico se mostra falho.
O desastre colombiano não é um evento isolado. No dia 24 de junho, a Venezuela também foi castigada por tremores, somando destruição física e vítimas – 6.301 mortos, pela última contagem – a uma crise econômica já crônica. A sucessão dessas emergências escancara a fragilidade da infraestrutura sul-americana. O socorro básico e imediato salva vidas nas horas críticas, mas a reconstrução real exige aportes financeiros robustos e a reativação da atividade econômica. Sem crédito e estabilidade, o impacto será sentido rapidamente no cotidiano: destruição de empregos, ruptura das redes de abastecimento e inflação que penalizará as populações mais pobres.
Diante dessa urgência dupla, esperava-se que os Estados Unidos assumissem a dianteira na coordenação do alívio logístico e financeiro. A expectativa pode soar ingênua, mas é proporcional ao grau de interferência que Washington já exerce na região. Afinal, sob Donald Trump, os Estados Unidos extraditaram à força o presidente venezuelano Nicolás Maduro, impuseram tarifas pesadas ao Brasil, impulsionam candidaturas alinhadas ao seu projeto político e tratam a América do Sul como quintal estratégico a ser gerido conforme a conveniência. Quem se arroga o direito de reorganizar a política do continente assume, por consequência, a responsabilidade de estar presente quando o continente desmorona. O ritmo letárgico e a ausência de protagonismo norte-americano no socorro à Colômbia e Venezuela vai além de uma falha humanitária e se torna uma omissão inadmissível.
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Ainda há tempo para que os pacotes de emergência sejam despachados, mas a prova definitiva de compromisso com a região se dará na economia. Para reerguer suas cidades, Colômbia e Venezuela precisarão de investimentos substanciais, linhas de crédito acessíveis e fronteiras comerciais abertas. Ou seja, exatamente o oposto do que Washington tem oferecido ao continente. No fim, quem paga o preço dessa seletividade não são os governos locais nem as ideologias, sejam de esquerda ou direita. São as pessoas que ainda estão esperando socorro debaixo dos escombros e que vão precisar de ajuda para um recomeço, que se torna cada vez mais difícil diante do descaso.