A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti coloca para o governo brasileiro o desafio de orientar a diplomacia no momento mais baixo em dois séculos de relações com os Estados Unidos – primeiro país a reconhecer a nossa independência, já em 1824. A crise coincide com a rápida deterioração dos laços com outro parceiro de primeira ordem, a Argentina de Javier Milei. Em resposta a seguidas ofensas dirigidas ao presidente Lula e à reiterada recusa a apresentar desculpas, o Itamaraty comunicou formalmente a decisão de "rebaixar as relações": o embaixador brasileiro não retornará a Buenos Aires até que esse comportamento mude, e a chancelaria argentina foi convidada a chamar de volta seu representante em Brasília.


A menos de dois meses do primeiro turno da disputa pelo Planalto, as turbulências simultâneas em dois pontos focais da frente externa, antes de tudo, não se afiguram como coincidência. Um dos pivôs, Milei, é o principal expoente da atual onda de extrema direita na vizinhança imediata do país. O outro, Donald Trump, é o seu padrinho político. Os laços de ambos com o bolsonarismo produzem impacto eleitoral incontornável, impossível de ser subestimado: como nunca antes, a política externa fará sentir sua presença no debate de campanha.


Fazem parte do jogo as esperadas manifestações não apenas dos desafiantes de Lula, mas de diferentes personagens e instituições que se alinham a eles, como os Clubes Militares. Expor as próprias opiniões – assim como absorver os contraditórios – é da essência do debate democrático. Mas não exatamente simétricas as posições: a oposição pode permitir-se apenas opinar; o candidato à reeleição é também o presidente. A ele cabe também decidir e, sobretudo, agir.


Para o Planalto e o Itamaraty, a incógnita está em encontrar o tom exato da resposta a ambos os desafios. Na pendência com Washington, a sanção imposta à embaixadora – uma diplomata de credenciais sólidas que já representou o Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU) – coloca limites à diplomacia brasileira no trato profissional e técnico de impasses como o das tarifas comerciais. São questões que impactam importantes setores econômicos e demandam soluções o quanto antes. No caso da Argentina, o afastamento dificulta ainda mais os esforços, no âmbito do Mercosul, para ampliar mercados externos e compensar perdas nas trocas com os Estados Unidos – evitando a armadilha de apostar todas as fichas na China.

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Lula terá também seus momentos de palanque. Neles, poderá rebater os adversários internos e mesmo contestar os desafetos externos. Mas, de volta ao gabinete, terá de despir a pele de candidato para agir e decidir como chefe de Estado. Lá, o que deve prevalecer é o interesse do país.

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