Marlon Pascoal
Executivo especializado em estratégia de dados e tecnologia aplicada aos negócios e um dos sete brasileiros selecionados para integrar a turma 2027 do MIT Sloan Fellows MBA, nos EUA
Logo na minha primeira semana no MIT, percebi algo que quase ninguém no mercado de tecnologia diz em voz alta. Usar inteligência artificial deixou de ser opcional. A IA virou o novo piso; é requisito básico e não proeza. E ninguém constrói uma vantagem financeira sustentável apoiando-se em uma ferramenta que o concorrente da esquina pode assinar pelo mesmo preço na segunda-feira seguinte.
Essa padronização tecnológica explica por que o retorno financeiro da atual onda de IA tem decepcionado tantos diretores e gestores dentro das organizações. O problema não é que a tecnologia falhou, mas sim que ela funciona de forma idêntica para o seu vizinho. Em termos de estratégia de negócios, uma capacidade só se traduz em margem de lucro se for difícil de copiar. Sem isso, a IA é como a energia elétrica na década de 1920.
No começo foi um diferencial estrondoso, mas logo virou a porta de entrada para continuar no jogo. Se a sua eficiência operacional vai para o mercado apenas na forma de preços menores (porque, afinal, todo mundo ganhou a mesma agilidade), quem capturou o valor foi o cliente, não o seu caixa. É aqui que a discussão ganha um novo contorno. Se a vantagem não está mais na ferramenta em si, ela passa a morar no que só você tem para alimentá-la, ou seja, o seu diferencial de operação e, principalmente, as suas decisões.
Antes de me sentar em uma sala do MIT e reavaliar minha própria jornada, passei anos construindo produtos focando em algoritmos robustos. E percebi que talvez meu "erro mais caro" não tenha sido a falta de método matemático, mas sim a pressa em aplicar artilharia pesada de tecnologia sem antes saber responder como isso me deixaria diferente. Eu estava simplesmente encantado pela máquina em vez de focado no problema.
Hoje, a maioria das empresas repete esse mesmo tropeço ao criar iniciativas vagas como "vamos colocar IA no marketing" ou "automatizar o atendimento". Sem saber exatamente qual decisão precisa ser tomada de forma mais rápida ou inteligente, a IA se torna um brinquedo caro procurando utilidade.
Para piorar, a IA moderna tende a concordar com quem pergunta. Um estudo de Stanford que analisou 11 dos principais modelos constatou que eles endossam as ações do usuário cerca de 50% mais do que outra pessoa endossaria, inclusive quando a mensagem envolve manipulação ou dano a alguém.
Na prática, se você leva uma pergunta torta ou um problema mal estruturado para a máquina, ela não te corrige. Ela devolve uma resposta educada, confiante e, às vezes, errada. O enquadramento ruim não encontra resistência, ele recebe aplauso. O verdadeiro fosso competitivo da sua empresa não será comprado em uma loja de aplicativos de IA. Ele será construído no trabalho silencioso e analítico de parar antes de apertar o botão e responder, em uma única linha: "Qual decisão do nosso negócio ficará mensuravelmente melhor com isso?".
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A tecnologia amplifica o que você já é. Quem dominar essa habilidade de traduzir suas dores em decisões afiadas verá a IA deixar de ser uma linha de despesa para se transformar em resultado.
