Leônidas de Oliveira - Secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais
No alto de Inhotim, o Sonic Pavilion, de Doug Aitken, abre-se para Brumadinho. Microfones descem 202 metros e transmitem os sons das profundezas. Enquanto os olhos alcançam o horizonte, os ouvidos são conduzidos ao que existe sob nossos pés.
Há nesse gesto uma arqueologia da vida. Antes de ser recurso ou mercadoria, a terra foi abrigo, rito, imagem e sepultamento. Em Minas, onde o Peruaçu conserva registros dessa presença milenar, escutar as profundezas é reencontrar algo anterior à mineração: a terra foi abrigo antes de ser mina; mistério antes de ser medida; memória antes de ser mercadoria.
Séculos depois, penetramos o chão para retirar ouro, diamante e ferro. O Sonic Pavilion também entra na terra, mas não para extrair. Entra para escutar. A mineração transforma a profundidade em mercadoria; a arte restitui-lhe presença, memória e voz.
Inhotim deve ser compreendido a partir dessa inversão: não apenas como museu, mas como criação inseparável da terra que o recebeu. Brumadinho participa de sua linguagem. Solo, vegetação, relevo e caminhada transformam aquilo que chega de fora. Em Inhotim, o global não desembarca pronto; o lugar o interroga e o modifica.
Pouco antes da abertura, em 12 de outubro de 2006, li no jornal Pampulha que Brumadinho teria um museu de arte contemporânea. Li com surpresa e curiosidade. Parecia improvável associar o município à vanguarda. Vinte anos depois, o mundo conhece Brumadinho.
Na origem está a intuição de Bernardo Paz: não apenas reunir obras, mas permitir que os artistas criassem os espaços de que necessitavam. Em True Rouge, de Tunga, redes, vidros e líquidos vermelhos formam algo entre corpo, alquimia e rito. Certas obras não pedem uma parede. Pedem um mundo.
Inhotim devolveu a arte ao calor, à chuva, à luz variável, ao jardim e ao corpo que caminha. O percurso entre galerias deixou de ser intervalo. Uma subida modifica a respiração; a sombra devolve a atenção; o horizonte permanece conosco na obra seguinte.
Em "Desvio para o vermelho", de Cildo Meireles, uma sala doméstica é tomada por uma única cor. Aos poucos, o vermelho sufoca, e a casa perde sua capacidade de proteger. Cildo encontra o revelador na vida comum: basta deslocar a normalidade para expor medo e memória.
Na "Cosmococa", de Hélio Oiticica e Neville D’Almeida, o visitante pode deitar, brincar, ouvir música e alterar a obra com a própria presença. A arte já não está somente diante de nós: acontece conosco. O corpo e o prazer também produzem conhecimento.
Em "Rodoviária de Brumadinho" e "Abre a porta", de John Ahearn e Rigoberto Torres, o município entra no acervo. Moradores, trabalhadores, congadeiros e moçambiqueiros deixam de ser anônimos. Brumadinho adquire rosto e olha de volta. Um museu universal não apaga o lugar onde nasce; aprofunda-o até que ele fale ao mundo.
Inhotim formou-se numa região marcada pela mineração. O museu não é sua absolvição, mas outro destino dado à terra pela arte, pela arquitetura, pela pesquisa e pelo trabalho.
Minas conhece a tensão entre a matéria que parte e a forma que permanece. O ouro deixou cidades, igrejas, imagens, músicas e festas. Inhotim recoloca a pergunta: o que podemos fazer permanecer sobre uma terra historicamente medida pelo que se retira de seu interior?
Depois de 25 de janeiro de 2019, a reflexão sobre Brumadinho se faz diante de uma ausência que não pode ser ornamentada. A arte não restitui vidas nem substitui justiça ou memória. O Memorial e Inhotim não se confundem, mas formam uma geografia moral: de um lado, o dever de recordar; de outro, a insistência da criação.
Em 20 anos, Inhotim passou a interrogar as ausências de sua primeira ideia de contemporaneidade. Abdias Nascimento, os artistas indígenas e as novas curadorias perguntam quem construiu o cânone e quem permaneceu fora dele. Tornar-se contemporâneo é também reconhecer quem ficou ausente da primeira imagem que fizemos do presente.
Dessa força estética nascem a projeção internacional de Inhotim e uma das mais visíveis transformações culturais e turísticas da Região Metropolitana. Em Brumadinho, desenha-se um corredor entre o Rola-Moça, Casa Branca, o Córrego do Feijão e o Memorial, Inhotim, Piedade do Paraopeba e a Serra da Moeda.
Natureza, memória, arte, gastronomia, hospitalidade e patrimônio compõem outra leitura do município. A restauração da Matriz de Nossa Senhora da Piedade reinsere nesse percurso a arte colonial e a fé que formaram Minas. Em Brumadinho, Barroco e contemporaneidade encontram-se na paisagem.
O novo museu projetado por Bernardo Paz poderá ampliar essa centralidade. Não se trata de somar equipamentos, hotéis e condomínios, mas de construir território. Mobilidade, saneamento, proteção das águas e planejamento precisam ligar esses lugares e fazer a riqueza alcançar moradores, comunidades e pequenos negócios.
Inhotim não redime a mineração. Mostra, porém, que a cultura pode disputar o destino de uma terra tantas vezes reconhecida apenas como recurso. Em Brumadinho, o chão não é somente aquilo que contém: é também aquilo que pode sustentar, cultivar e fazer permanecer.
Há 20 anos, surpreendia imaginar um museu daquela ambição em Brumadinho. Hoje, a questão se inverte. Talvez Inhotim somente pudesse nascer ali, onde a arte ensinou o mundo não apenas a contemplar a paisagem de Minas, mas a escutar a sua terra.
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Depois de Inhotim, é difícil imaginá-lo nascendo em qualquer outro lugar.