Na última quarta-feira (29/7), enquanto ventos de até 125km/h varriam o Sudeste brasileiro, deixando um rastro de cinco mortos e caos urbano, o governo federal anunciava, de Brasília, um pacote de R$ 1,3 bilhão para conter os efeitos do super El Niño previsto para o segundo semestre do ano. O contraste entre os destroços nas ruas e o anúncio de cifras nos gabinetes escancara uma verdade indigesta: a administração pública no Brasil continua correndo atrás do clima, e não o contrário.


Os impactos práticos da tempestade foram avassaladores. No Rio de Janeiro, rajadas de 105 km/h causaram um apagão que desligou sinais de trânsito e paralisou trens e metrôs na hora do rush. Em São Paulo e no litoral, árvores esmagaram veículos. As duas cidades registraram vítimas. O saldo não é o retrato do cotidiano desmanchado: o trabalhador ilhado no escuro, o comércio no prejuízo e a infraestrutura em colapso. Embora a ventania e a frente fria não sejam um produto direto do El Niño, ela funcionou como uma prévia brutal do que aguarda o país nos próximos meses.


A liberação de R$ 1,3 bilhão pelo governo federal é uma medida bem-vinda. O recurso mira a segurança alimentar, o monitoramento de bacias e o combate a incêndios. Esse valor, inclusive, não chega sozinho: em junho, R$ 9,8 bilhões foram anunciados pelo Ministério da Saúde para preparar o SUS aos impactos do El Niño, com 27 metas, 93 ações e horizonte até 2035.


Somados, os dois pacotes sinalizam que, pela primeira vez, o país está tentando montar uma resposta climática integrada, não apenas no sistema de saúde, mas na infraestrutura, na agricultura e na gestão de riscos. É um movimento na direção certa. O problema, como sempre, é a execução.


Divididos em um país de dimensões continentais que enfrentará secas extremas no Norte e inundações no Sul, os montantes pouco arranham a superfície do que é preciso para corrigir décadas de obsolescência urbana. A memória histórica está repleta de orçamentos emergenciais que secam assim que as manchetes perdem a força. E mesmo vultosos, os valores são sintomáticos de uma governança ainda predominantemente reativa.


O tempo para discursos focados exclusivamente em mitigar as mudanças climáticas expirou. O imperativo agora é a adaptação. Não há mais como evitar que o clima extremo atinja as metrópoles, como ficou claro com o vendaval em São Paulo e Rio de Janeiro, mas é inaceitável não gerir os danos. As cidades brasileiras precisam de planos de resiliência reais: enterramento gradual da fiação elétrica, manutenção contínua, engenharia de escoamento e sistemas de alerta que mobilizem a população antes da tragédia, não durante a contagem de feridos.

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O vendaval que arrasou o coração econômico do país não foi uma anomalia isolada. É o novo padrão. Enquanto autoridades de todas as esferas insistirem em tratar a fúria da natureza como um imprevisto incalculável, os bilhões anunciados nos gabinetes continuarão sendo apenas intenções, e a conta do descaso continuará sendo paga por quem não tem para onde correr quando a tempestade chega.

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