A crise diplomática aberta com a Argentina, depois das declarações do presidente Javier Milei em visita não oficial ao país, ilustra nos tons mais berrantes o cenário regional que aguarda o próximo governo brasileiro, na virada do ano. Paralelamente, entram em cena, na vizinhança imediata, mais dois governos de direita alinhados em alguma medida a Donald Trump: Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia.
Para além de eventual incidência no debate eleitoral que deslancha por aqui, a guinada política na América do Sul — e na América Latina, em geral — terá peso fundamental na formulação da política externa para os próximos anos. Desde logo, porque o presidente eleito em outubro deverá contracenar com Trump na Casa Branca por metade do mandato. Seja quem for o titular do Planalto, terá de fazer interface com uma agenda de orientação cristalina: o lema, em Washington, é reafirmar a hegemonia no Hemisfério, inclusive como parte da disputa com a China pela hegemonia global.
Se na relação bilateral predomina hoje a guerra das tarifas, ao longo dos meses tende a ganhar terreno outra guerra — contra o crime organizado transnacional, especialmente o narcotráfico. Milei, Keiko e De la Espriella fazem coro com Daniel Noboa (Equador), Santiago Peña (Paraguai) e José Antonio Kast (Chile) na adesão ao modelo de "mão dura" adotado em El Salvador por Nayib Bukele — outro trumpista raiz. A presidente peruana anunciou, no discurso de posse, o envio dos militares para "recuperar" as regiões do país conflagradas pela violência.
Figura nos planos de vários deles, se não todos, a perspectiva de cooperação operacional com os Estados Unidos na abordagem militar da segurança pública. Pela perspectiva de Washington, esse movimento se desdobra na direção de estabelecer ou restaurar a presença militar no continente. Nos próximos anos, ainda com Trump no comando, uma rede de bases norte-americanas poderá estar em funcionamento de norte a sul das fronteiras. Sem falar na recente reativação da IV Frota, com jurisdição sobre as Américas: nos últimos meses, ela mostrou ao que veio afundando barcos na costa da Venezuela e da Colômbia e impondo o bloqueio de petróleo contra Cuba.
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É de múltiplos desafios o horizonte que se desenha para o vencedor da corrida ao Planalto em outubro. Os candidatos que despontam como favoritos apontam em direção opostas, na pauta externa. Mas subirão ao palco no mesmo cenário. Cada qual com sua abordagem, terá de se debruçar desde logo sobre uma conjuntura regional que se sobrepõe a um panorama global de guerras e conflitos que ensaiam entrelaçar-se. Não bastará enfileirar argumentos para o debate de campanha. Mais que isso, será preciso ter ideias claras e fundamentadas para conduzir o país em um período que se anuncia acidentado e pouco previsível.