Em janeiro de 2021, uma multidão invadiu o Capitólio tentando impedir a certificação de uma eleição que havia sido decidida nas urnas. Quatro anos e meio depois, os indicados de Donald Trump para os postos mais altos do Estado ainda não conseguem dizer, em público, quem ganhou aquela eleição.


As recentes sabatinas no Congresso americano – cujos trechos inundaram as redes sociais – expuseram um espetáculo de contorcionismo retórico constrangedor. Indicados de alto escalão para postos vitais do Estado, da inteligência nacional ao judiciário, hesitam, gaguejam e recorrem a respostas ensaiadas sobre a "certificação" formal do pleito de 2020 para evitar pronunciar uma verdade factual simples: Joe Biden venceu aquela eleição. Esse silêncio corporativo, motivado pelo receio evidente de contrariar Donald Trump, não é um capricho de lealdade partidária. É o sintoma mais agudo de uma erosão institucional planejada que coloca sob xeque a estabilidade da maior potência ocidental às vésperas das eleições legislativas de novembro.


A recusa sistemática em validar a lisura do passado funciona como laboratório de testes para o futuro imediato. Ao manter viva a retórica da fraude sem provas, pavimenta-se o terreno para uma contestação deliberada caso os resultados das próximas eleições de meio de mandato, as midterms, quando todo o Congresso é renovado, contrariem os interesses do círculo trumpista. O risco real já não se limita à judicialização dos resultados: estende-se à possibilidade de interferência direta nos mecanismos de contagem ou, no limite, a tentativas de inviabilizar a própria realização dos pleitos. Quando funcionários que deveriam zelar pela segurança e pela aplicação da lei se dobram à intimidação política antes mesmo de assumirem suas cadeiras, a confiança institucional entra em colapso prático.


A história demonstra que grandes repúblicas raramente desmoronam por invasões externas. Colapsam, normalmente, pela gradual deterioração de suas salvaguardas internas. A democracia americana, que acabou de completar 250 anos, construiu sua hegemonia global sob o princípio da transferência pacífica e inquestionável do poder. Quando essa engrenagem é travada por ego ferido e personalismo autocrático, o impacto reverbera além das fronteiras. Crises institucionais em Washington desestabilizam mercados, afetam linhas de investimento e oferecem um salvo-conduto moral para que regimes autoritários em outras latitudes deslegitimem seus próprios processos eleitorais. O que se assiste atualmente no Capitólio não é uma querela paroquial americana, e sim o enfraquecimento da principal referência democrática do Ocidente.

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Diante desse cenário, a crença de que as instituições se autorregularão ou de que a moderação prevalecerá após a confirmação dos cargos é um erro de cálculo temerário. Se a exigência para governar passou a ser a negação da realidade objetiva e o alinhamento cego a um ressentimento pessoal, o pacto constitucional está sob suspensão condicional. Os congressistas e as lideranças que hoje toleram esses recuos táticos por conveniência partidária serão os responsáveis diretos pelo preço que o mundo pagará amanhã. A maior democracia do planeta caminha para novembro sob a sombra de uma ameaça fabricada. Se o blefe do autoritarismo não encontrar resistência firme agora, o colapso deixará de ser hipótese para se tornar fato.

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