Rodrigo Metedieri Miguel

Cofundador e executivo de Produto e Operações de Saúde da Vitta

Em junho de 2026, estive no World Health Expo, em Miami, a maior feira de saúde das Américas: mais de 1.200 expositores, 120 países.

O Brasil estava lá, e os estandes eram bonitos. O problema não era o que havia – era o quanto havia: contados um a um, cabiam nos dedos, enquanto países com uma fração da nossa população ocupavam fileiras inteiras.

Perguntei a um empreendedor brasileiro, que apresentava um dispositivo de massagem robótica para joelho, por que havia tão pouca gente do Brasil. "Foram quase dez anos até a aprovação sair. E, veja bem: é um massageador de joelho, não uma prótese cardíaca. Não entra no corpo de ninguém. Tinha que ser mais simples e mais rápido."

Dez anos é tempo para um concorrente estrangeiro percorrer o ciclo inteiro duas vezes e chegar aqui antes do produto brasileiro.

A China faz diferente. Na Zona Piloto de Boao Lecheng, em Hainan, dispositivos sem registro nacional – mas aprovados por autoridade estrangeira reconhecida – podem ser comercializados em ambiente clínico real. Os dados gerados enquanto o produto fatura viram evidência formal e sustentam o pedido de registro, reduzindo o acesso ao mercado em cerca de quatro meses. Não é ausência de rigor: há protocolo e análise estatística. O que muda é quando a evidência é produzida e quem paga por ela: o produto financia o próprio dossiê, o Estado ganha dados, o país ganha uma indústria.

A Anvisa tem se movido: em biológicos, a análise caiu de 22 para 9 meses; em pesquisa clínica, o aproveitamento de análises estrangeiras derrubou 44% do tempo de avaliação. É trabalho sério, e ainda assim insuficiente – acelera um processo cuja arquitetura permanece intacta. A China não encurtou a fila: fez com que ela deixasse de ser o gargalo. Discutimos como reduzir de 320 para 250 dias; outros perguntam se o produto precisa mesmo esperar para existir.

O problema não é o rigor, é o rigor indiferenciado, que trata um massageador de joelho como um implante. Nossa regulação é ótima em proteger o paciente que não terá o produto.
Também não é falta de jogador: repetimos com tecnologia o que fazemos no futebol, formando base de altíssimo nível e exportando antes do amadurecimento. Em 2025, o setor de dispositivos médicos acumulou déficit de US$ 9,2 bilhões, segundo a Aliança Brasileira da Indústria Inovadora em Saúde (ABIIS).

E se o SUS fosse ativo, e não obstáculo? A China construiu uma zona numa ilha para gerar evidência de mundo real; temos o maior sistema público unificado do planeta. E se houvesse via rápida de saída, não só de entrada? Aprovar fora, gerar receita, provar em mercado real, voltar validado.

No futebol, ao menos, sabemos que perdemos: tem placar, apito, cobrança. Em inovação na área da saúde, a derrota acontece em silêncio, e só aparece quando alguém conta nos dedos quantas empresas do país chegaram até ali.

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Temos o jogador, a base, o mercado, a escala. Falta um campo onde a bola role antes da aprovação sair por escrito.

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