Quando uma potência comercial não consegue competir com a solução de outro país, tem duas opções: inovar ou taxar. Os Estados Unidos escolheram taxar. Na madrugada de quinta-feira, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), órgão comandado pelo embaixador Jamieson Greer e subordinado ao secretário de Estado, Marco Rubio, confirmou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, com entrada em vigor em 22 de julho. A decisão é resultado de uma investigação de um ano com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite ao governo norte-americano retaliar países por supostas práticas comerciais desleais. Entre os pretextos listados estão o Pix, decisões judiciais sobre plataformas digitais, acesso ao mercado de etanol e desmatamento. Rubio foi além nos argumentos técnicos: em publicação nas redes sociais, afirmou que “Lula colocou seu próprio ego acima de um acordo” e que o presidente brasileiro “não negociou de boa-fé”. A acusação diz mais sobre o tom da relação bilateral do que sobre qualquer fundamento comercial.


A realidade, porém, está muito distante da caricatura de ameaça global pintada em Washington. É inegável que o Pix é uma das maiores conquistas estruturais do país nas últimas décadas. Na economia real, o sistema facilitou o dia a dia de cidadãos e empresas, derrubando custos operacionais e injetando dinamismo no comércio, do trabalhador informal nas ruas às grandes cadeias de suprimentos. Ao reduzir a circulação de papel-moeda, a tecnologia conferiu mais segurança às operações, diminuiu a incidência de pequenos crimes e empurrou para a formalidade milhões de brasileiros antes à margem do sistema bancário.


O que torna o ataque ainda mais infundado é a natureza do próprio sistema. O Pix representa uma raríssima vitória da continuidade institucional em um país viciado em rupturas. Desenvolvido durante o governo Michel Temer, implantado na gestão de Jair Bolsonaro e ampliado sob Lula, a ferramenta provou ser uma verdadeira política de Estado do Banco Central e também suprapartidária, sobrevivendo às tempestades ideológicas justamente por sua indiscutível utilidade pública.


A posição americana, expressa por um alto funcionário da Casa Branca, é reveladora: “Não estamos pedindo ao Brasil para se livrar do Pix. Queremos que ele compita com as empresas americanas na mesma base.” A frase soa razoável até ser examinada de perto. O Pix é infraestrutura pública – equivalente a exigir que uma rodovia federal "compita em igualdade" com operadoras privadas de pedágio. O desconforto de Washington não é com a concorrência desleal. É com a existência de um modelo eficiente que dispensa os intermediários financeiros americanos.


A lista de exceções negociada pelo Brasil (que preservou carne, café, suco de laranja, petróleo e componentes aeronáuticos) demonstra que o diálogo técnico produziu resultados concretos. Mas a tarifa sobre etanol, máquinas agrícolas e calçados, combinada com a possível taxa adicional de 12,5% por trabalho forçado, pode chegar a 37,5% sobre parte das exportações. O setor produtivo brasileiro, que mobilizou CNI, Fiesp e dezenas de entidades nas audiências públicas de julho, tem razão ao alertar que a medida punirá também consumidores e indústrias americanas dependentes de insumos brasileiros sem substituto equivalente no mercado doméstico dos EUA.

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O governo brasileiro tem o dever de tratar este episódio com pragmatismo e gravidade, defendendo sua infraestrutura sem recorrer a bravatas. A ativação da Lei de Reciprocidade Econômica é uma resposta legítima, desde que usada como instrumento de negociação, não de escalada. O Pix não é o vilão da balança comercial americana. Se o Brasil aceitar que uma inovação doméstica bem-sucedida seja usada como moeda de troca para aplacar frustrações externas, estará sabotando o próprio progresso. A diplomacia nacional não pode custar a nossa soberania tecnológica.

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