Mais uma vez, como tem sido recorrente desde o último dia de fevereiro, os ímpetos imperiais de Donald Trump colocam o resto do mundo em suspense, particularmente no que diz respeito aos rumos da economia global. No intervalo de 24 horas, o presidente estadunidense anunciou um bloqueio naval próprio no Estreito de Ormuz e a cobrança de taxa de 20% sobre o valor da carga para os navios que cruzem a via marítima com petróleo e derivados – para, na sequência, revogar a medida.


Nesse ínterim, Washington foi bombardeada pela reação de aliados perplexos com a ideia de vir a pagar pedágio justamente para a potência que enviou seu poderio aeronaval ao Golfo Pérsico em nome de assegurar o livre trânsito por um gargalo crítico para o abastecimento energético mundial. Passados quatro meses da ofensiva americano-israelense contra o Irã islâmico, Europa e Ásia se veem ainda diante da incerteza quanto a uma cadeia de fornecimento estratégica para o funcionamento de sua economia.


Não vêm de ontem ou anteontem os sobressaltos provocados pela conduta errática do presidente dos EUA – desde o primeiro mandato, entre 2017 e 2021. Multimilionário, talvez bilionário, com fortuna construída na selva do mercado imobiliário, Trump se notabiliza por abordar o tabuleiro geopolítico como quem enfrenta os rivais em uma partida do conhecido jogo infantojuvenil conhecido por aqui como Banco Imobiliário.


Quatro meses de combates e escaramuças com o Irã, herdeiro de uma civilização milenar que é berço do xadrez, bastaram para expor a pobreza de planejamento e estratégia por parte da maior potência militar e (ainda) econômica do planeta. A cada dia que passa, a condução da guerra pela Casa Branca assume a forma de uma sucessão de erros, aparentemente interminável.


Mas não são apenas os Estados Unidos que pagam a conta pelos vaivéns e pelas ações impulsivas determinadas pela Casa Branca. Nem o próprio presidente, embora tenha no horizonte uma eleição legislativa da qual pode sair para a segunda metade do mandato em minoria em ambas as casas do Congresso. Uma condição que o jargão político de Washington designa com a expressão implacável do "pato manco".


Além do próprio futuro político, Trump coloca em risco a estabilidade da economia internacional. Seus rompantes intempestivos no cenário crítico do Golfo Pérsico – que ele parece desconhecer solenemente – ameaçam deflagrar uma crise global expressa em montanha-russa nos mercados e inflação espraiada pelo globo em ondas concêntricas. Aí reside a apreensão, compartilhada nos quatro quadrantes, diante de mais dois anos (e algo além) ao sabor dos humores de um governante instável e mal informado, mas inflexível no uso errático dos poderes que tem em mãos.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


O ziguezague no campo de batalha atesta que o senhor do exército confronta, com atraso talvez funesto, uma máxima que os adolescentes aprendem a reconhecer ainda na vida escolar: é infinitamente mais fácil entrar em uma briga do que sair dela. Mesmo quando reconhece oportuna a retirada, não basta ao agressor baixar a guarda. Afora o adversário direto, estão na contenda aliados de ambas as partes, com interesses a defender e ferimentos a remediar. Cada qual, naturalmente, defenderá os próprios interesses.

compartilhe