Os avisos obrigatórios determinados pelo Ministério da Fazenda para as plataformas de apostas on-line, semelhantes aos alertas estampados em maços de cigarros e propagandas de bebidas alcoólicas, representam um avanço importante, mas insuficiente diante da epidemia de apostas em bets no Brasil. Seu efeito deletério sobre a economia familiar pode ser quase comparável à corrosão da renda pela ciranda financeira da hiperinflação dos anos de 1980.
A medida reconhece, porém, uma realidade objetiva: as apostas deixaram de ser apenas uma atividade econômica que demanda regulação e passaram a configurar um grave problema de saúde pública. O crescimento desse mercado foi explosivo: dezenas de milhões de brasileiros já realizaram apostas on-line desde a regulamentação do segmento e o volume movimentado alcança centenas de bilhões de reais por ano, tornando o Brasil um dos maiores mercados mundiais da modalidade.
Ao mesmo tempo em que o setor gera arrecadação tributária e atrai investimentos, produz um rastro preocupante de endividamento, transtornos mentais e desestruturação financeira das famílias. Os números mais recentes ajudam a dimensionar o problema. Levantamento do Procon-SP revela que quatro em cada 10 apostadores contraíram dívidas em decorrência da atividade on-line. A maioria tem renda de até dois salários mínimos, justamente a parcela mais vulnerável aos efeitos do vício.
Outra pesquisa, elaborada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), estima que, entre 2023 e março de 2026, o impacto das apostas retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista brasileiro. Os gastos mensais com plataformas digitais cresceram mais de R$ 30 bilhões, contribuindo para que aproximadamente 270 mil famílias ingressassem em situação de inadimplência severa, caracterizada por atrasos superiores a 90 dias.
Esses indicadores explicam por que o Ministério da Fazenda e o Ministério da Saúde passaram a tratar conjuntamente da questão. O próprio governo federal reconhece que os prejuízos à saúde mental e o comprometimento do orçamento doméstico exigem políticas públicas permanentes de prevenção, tratamento e fiscalização. A Copa do Mundo, entretanto, mostrou que ainda existe enorme distância entre o discurso da responsabilidade e a prática do mercado.
Em praticamente todas as transmissões esportivas, multiplicaram-se comentaristas especializados em apostas, influenciadores ensinando estratégias de jogo e celebridades incentivando palpites em tempo real. A publicidade deixou de apenas apresentar uma marca e passou a estimular o comportamento contínuo de apostar, transformando cada lance da partida em oportunidade de consumo.
Essa banalização do jogo é especialmente preocupante porque explora mecanismos conhecidos da psicologia comportamental. As plataformas utilizam notificações constantes, apostas instantâneas, recompensas variáveis e estímulos permanentes semelhantes aos empregados pelas redes sociais para manter o usuário conectado. O resultado é um ambiente desenhado para prolongar o tempo de permanência e aumentar o volume apostado.
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Poucas pessoas sintetizaram essa lógica de maneira tão direta quanto a atriz Fernanda Torres. Em entrevista recente, ela relatou ter recusado participar de campanhas publicitárias para casas de apostas e resumiu o dilema ético envolvido: "Tem uma coisa difícil nesses contratos: quanto mais as pessoas perdem, mais você ganha." A frase expõe a essência do modelo de negócios: o lucro das empresas cresce proporcionalmente às perdas acumuladas pelos clientes.