Resgatada neste mês em um condomínio de luxo no Ceará, uma mulher de 62 anos é vítima de enredo que derruba qualquer argumento de que mentalidade e práticas escravocratas ficaram em um passado sombrio da história brasileira. Ela trabalhou para três gerações de uma mesma família, a partir dos 7 anos de idade, sem nunca ter recebido salário por isso. A jornada mais recente começava às 4h30 da manhã e combinava funções de babá, faxineira e cozinheira, entre outros afazeres domésticos, e tinha como contrapartida R$ 600 mensais, fruto da inscrição no Bolsa Família que também estava sob controle dos empregadores. Livre do regime análogo à escravidão, a idosa enfrenta, agora, outra faceta do racismo estrutural que engrena as relações no Brasil. Não há prisões, reparação à altura e muito menos surpresa com tamanha perversidade.
É rotina para profissionais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) se depararem com relações de violência extrema incompatíveis com sociedades que se dizem civilizadas. No ano passado, 2.772 pessoas foram resgatadas da condição de trabalho análoga à escravidão – um aumento de 27% em relação a 2024. O recorte apenas do trabalho doméstico revela avanço ainda maior: 80%, de 19 para 34 resgates no mesmo período. Chama a atenção ainda o fato de que, considerando as operações de 2025, praticamente uma em cada quatro vítimas (24%) tinha o ensino médio completo e que, pela primeira vez, o número de trabalhadores resgatados no meio urbano (68%) superou o do meio rural.
Além de persistir, a escravidão é camaleônica, se adapta impulsionada pela sobreposição de vulnerabilidades que facilita a violação de direitos neste país. As correntes da servidão seguem nas lavouras e, cada vez mais, se cravam em oficinas de costura clandestinas, nas construções irregulares de edifícios, sobre as rodas dos serviços de entrega, nas garras de traficantes, nas falsas comunidades terapêuticas e nos quartos ocupados por quem é “praticamente da família”. De tão entranhadas, só serão rompidas com uma resposta integrada do poder público e o entendimento aprofundado da inadmissibilidade dessas práticas.
Nesse sentido, o recorde de denúncias recebidas em 2025 contrasta com a condução do caso mais recente que chegou aos noticiários. Pelos cálculos dos auditores fiscais, os créditos trabalhistas dos serviços que a idosa prestou à família no Ceará durante mais de 50 anos ultrapassam R$ 1,5 milhão. Conforme o Termo de Ajuste de Conduta assinado, ela vai receber R$ 50 mil de verbas rescisórias, um imóvel no valor de R$ 150 mil e o custeio das contribuições previdenciárias até a sua aposentadoria. O recado é claro: sai barato subjugar o trabalho alheio.
Na avaliação de especialistas, o Brasil tem uma legislação considerada referência internacional na proteção dos direitos humanos e do trabalho. Além disso, é signatário de diversos instrumentos internacionais voltados à erradicação do trabalho escravo contemporâneo. A realidade dos campos e das cidades, porém, revela a complexidade de transformar esses pactos legais em prática cotidiana. Em um momento em que o debate sobre como as jornadas afetam a qualidade de vida dos trabalhadores mobiliza autoridades e figuras públicas, é oportuno – e necessário – que os olhos também se voltem para as condições que, travestidas de oportunidade de emprego, destroem a dignidade humana e transformam pessoas em mercadorias.