A audiência pública realizada ontem em Washington expôs uma ferida que o pragmatismo diplomático costuma tentar mascarar: o uso de decisões de Estado estrangeiras como combustível para as urnas brasileiras. Ao apelar diretamente ao governo de Donald Trump para que cancele a imposição de novas tarifas ao Brasil sob a justificativa de que a medida beneficiaria o presidente Lula, o senador Flávio Bolsonaro verbalizou o óbvio e admitiu a instrumentalização do cenário econômico como arma eleitoral. Qualquer que seja o desfecho tomado pela Casa Branca a partir de agora, a decisão de manter ou suspender as tarifas nascerá contaminada por uma interferência direta no processo eleitoral de outubro.

O erro de diagnóstico, no entanto, é compartilhado. Ao rebaixar o debate técnico de barreiras alfandegárias a um cálculo de conveniência partidária, as lideranças nacionais abrem mão da altivez institucional. Se os Estados Unidos recuarem para evitar o fortalecimento do atual governo, estarão interferindo; se avançarem com o protecionismo agressivo da doutrina Trump ignorando o apelo, moldarão a percepção do eleitorado pelo sufocamento econômico. De qualquer forma, o comércio bilateral e seus efeitos diretos no bolso do brasileiro se tornam variáveis dependendo de um cálculo que não foi feito em Brasília.

O custo dessa contaminação já é tangível. Empresários que dependem do mercado americano não sabem se planejam estoques, contratos e investimentos para um Brasil com ou sem tarifas. O câmbio oscila não apenas por fundamentos macroeconômicos, mas por declarações de senadores em audiências estrangeiras. O setor exportador, que deveria estar negociando prazos e volumes, está de olho em bastidores diplomáticos que não controlam e nos quais não têm voz.

O cenário ideal, obviamente, não comporta interferência nenhuma. O comércio entre as duas maiores economias do hemisfério não pode flutuar ao sabor de pesquisas de intenção de voto ou da afinidade ideológica entre dinastias políticas. O que o setor produtivo brasileiro precisa é de previsibilidade e segurança jurídica, ativos que desaparecem quando o debate técnico é substituído pela súplica partidária em tribunais estrangeiros. Concessões feitas com base em alinhamentos automáticos cobram um preço alto e entregam poucos resultados práticos. A história recente das relações internacionais está cheia desse tipo de conta.

Cabe às instituições brasileiras tentar isolar ao máximo os efeitos colaterais dessa disputa. Flutuações de preços, pressões cambiais e restrições de mercado decorrentes do embate em Washington não podem ser digeridas pelo eleitor como peças de propaganda de nenhum lado. A estabilidade do processo democrático depende da capacidade das instituições de blindar o debate público do contágio externo e de deixar claro que as decisões tomadas em Washington não têm o poder de definir quem governa o Brasil.

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A escolha do próximo ocupante do Planalto diz respeito única e exclusivamente aos cidadãos brasileiros. O protecionismo americano, disfarçado ou não de conveniência política, não deve se sobrepor à autodeterminação de um parceiro estratégico. E governantes e candidatos precisam entender que o resultado de outubro, afinal, não pode depender de negociações nos bastidores estrangeiros.

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