Mais de uma semana após os terremotos que devastaram a Venezuela, bombeiros militares de Minas Gerais, de São Paulo e do Paraná seguem retirando corpos dos escombros sob calor de 31°C, com sensação térmica superior a 32°C, em meio a estruturas instáveis que exigem avaliação técnica antes de cada avanço. Na quarta-feira, mais duas vítimas foram localizadas e retiradas. Na terça, foram três, duas mulheres e um homem de 71 anos. São números frios para a tragédia, mas que devem ser exaltados. Os profissionais brasileiros cruzaram fronteiras, deixaram suas casas e foram cavar entre escombros num país que não é o seu porque entenderam, antes de qualquer discurso, que vidas humanas não têm nacionalidade. É o melhor que a solidariedade internacional tem a oferecer, e merece ser dito com todas as letras.


A missão brasileira não está sozinha. Equipes de diferentes países trabalham lado a lado nos destroços de Caracas, partilhando cães farejadores, protocolos de biossegurança e o mesmo esgotamento. Essa teia de socorro voluntário, construída à base de competência técnica e humanidade, é a prova de que, quando o mundo decide agir, consegue agir bem. O problema é quando demora a decidir.


As primeiras 72 horas após um colapso estrutural são o intervalo em que a maioria dos sobreviventes pode ser resgatada com vida. Cada hora além disso tem um custo que não aparece em nenhum comunicado oficial, mas que qualquer bombeiro que já trabalhou em escombros conhece de cor. A mobilização internacional na Venezuela foi lenta, fragmentada e aquém do que a dimensão da tragédia exigia. Enquanto equipes voluntárias de países como o Brasil chegavam com seus próprios recursos, as potências com capacidade real de liderar uma resposta coordenada enrolavam-se em protocolos e conveniências.


É aqui que a contradição se torna indefensável. Os Estados Unidos, que nos últimos meses assumiram papel central na reconfiguração política venezuelana, apoiando o governo de transição, negociando uma dívida de US$ 240 bilhões e sinalizando uma nova arquitetura de influência na região, deveriam ter sido os primeiros a cruzar a fronteira com equipes de resgate. O mesmo vale para as potências europeias que acompanham de perto o processo de transição. Quem interfere na política de um país assume uma responsabilidade sobre o seu povo, não apenas nos momentos de conveniência estratégica, mas especialmente nos momentos de colapso.

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Acima de qualquer tensão diplomática ou cálculo político, há pessoas sob os escombros. Ou havia. Os bombeiros brasileiros, que devem ser exaltados pela presteza, foram porque era o certo a fazer, com os recursos que tinham e sem esperar que ninguém mandasse. Agora, é hora de cobrar o mesmo das nações que têm muito mais recursos – e muito mais responsabilidade sobre o que acontece na Venezuela.

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