“No calendário das boas invenções humanas, o 20 de maio passou a merecer um lugar de respeito. Foi o dia dedicado ao medicamento genérico, esse herói silencioso que entrou nas farmácias brasileiras sem pompa de laboratório estrangeiro, sem anúncios cinematográficos e sem as vestes douradas das grandes marcas, mas com a virtude rara de aliviar a dor sem castigar o bolso. Durante muitos anos, o brasileiro entrou na farmácia como quem adentrava uma casa de penhores. Saía de lá com a receita numa mão e o susto na outra. O remédio original, cercado da fama e do luxo do nome, parecia artigo de joalheria. Havia famílias que dividiam comprimidos como quem reparte pão em tempo de seca. E o pobre, esse eterno equilibrista das contas domésticas, frequentemente precisava escolher entre tratar a doença ou preservar a feira do mês. Foi então que o genérico deixou de ser visto como um primo pobre da medicina para se tornar protagonista de uma revolução silenciosa. Os números mais recentes da Pesquisa de Comportamento do Consumidor em Farmácias no Brasil, edição 2026, confirmaram aquilo que o povo já vinha dizendo na linguagem prática da sobrevivência, os genéricos conquistaram definitivamente espaço nas sacolas dos brasileiros. Eles estiveram presentes em 32,1% das cestas de compras nas farmácias do país. Não se tratou apenas de estatística fria. Foi o retrato de uma população aprendendo a comprar com inteligência e necessidade. O brasileiro, mestre em improvisar a vida, descobriu que saúde não precisava andar de braços dados com preços proibitivos. Descobriu também que confiança não mora necessariamente na embalagem mais vistosa. O salário do brasileiro continua curto para os longos corredores da indústria farmacêutica. O genérico, nesse cenário, representou uma espécie de democracia medicinal, a possibilidade de tratar a hipertensão sem aumentar a pressão da conta bancária; de combater a infecção sem infeccionar o orçamento doméstico. Foi a vitória da utilidade sobre o glamour. Da necessidade sobre a vaidade comercial. O brasileiro finalmente percebeu que remédio bom não era o que vinha envolto em nomes difíceis e caixas reluzentes, mas aquele que cumpria o dever de curar sem exigir o sacrifício da panela no fogão. Porque doença nunca escolheu classe social. Mas, durante muito tempo, o acesso ao tratamento pareceu escolher. O brasileiro aprendeu, enfim, que economia também pode ser remédio.”
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GREGÓRIO JOSÉ - Belo Horizonte