Vladimir Putin construiu sua legitimidade sobre uma promessa implícita: a de que a Rússia, sob seu comando, jamais voltaria a ser humilhada. Foi esse pacto tácito com a população, forjado sobre os escombros do colapso soviético e do péssimo governo de Boris Iéltsin, e alimentado por duas décadas de centralização do poder, que sustentou índices de aprovação invejáveis e silenciou qualquer oposição relevante. A guerra na Ucrânia, prevista para durar apenas três dias, estava destinada a ser o capítulo definitivo dessa narrativa. Está se tornando o seu maior problema.
A recente investida ucraniana, com mais de 500 drones rompendo os sistemas de defesa antiaérea russos, levou o conflito a um novo patamar. Ao atingir refinarias nos arredores de Moscou, polos tecnológicos e aeroportos, a ação impôs danos físicos e anulou a vantagem estratégica que, por séculos, protegeu a Rússia: sua imensidão territorial. A decisão de Putin de sustentar uma guerra de atrito, apostando na exaustão do inimigo pelo gasto indiscriminado de homens e munição, resultou em uma fatura doméstica insustentável. Com estimativas de quase 1,2 milhão de baixas até o fim de 2025, a operação aprofundou uma crise demográfica estrutural já em curso: o país registra suas menores taxas de natalidade em décadas.
Na economia, o custo da ineficiência militar recai sobre a população. O Estado drena recursos escassos para uma engrenagem bélica incapaz de blindar o próprio espaço aéreo enquanto a inflação corrói o salário de quem financia a guerra com o imposto.
O desgaste cobra seu preço político. Os índices de aprovação de Putin caíram de forma suficientemente aguda para que institutos de pesquisa estatais interrompessem a divulgação semanal dos dados, sinal inequívoco de que os números deixaram de ser convenientes.
É esse enfraquecido Putin, pressionado domesticamente e militarmente, que chegou à China para uma conversa com Xi Jinping. A visita ocorre menos de uma semana após a passagem de Donald Trump pelo país. Nenhum dos dois foi a Pequim por cortesia diplomática. Foram porque precisavam.
O contraste entre as duas visitas, porém, é revelador. Trump chegou como o adversário que busca acomodação. Putin chega como dependente que busca sustento. A aliança sino-russa esconde uma assimetria que o prolongamento da guerra tornou impossível disfarçar: a Rússia precisa da China muito mais do que a China precisa da Rússia. Xi Jinping sabe disso. Putin também.
A China tem hoje a capacidade concreta de determinar o desfecho da guerra por duas vias opostas: pressionar Putin a negociar com a Ucrânia, admitindo algo parecido com uma derrota, ou aprofundar o fornecimento de tecnologia e componentes militares à Rússia, acelerando uma vitória que redesenharia o equilíbrio de poder na Europa e no mundo. Em qualquer dos cenários, Putin terá que ceder, seja à pressão de Pequim por uma saída negociada ou à lógica de uma guerra que só continuará com suporte chinês explícito. A autonomia estratégica russa, na prática, já não existe.
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O que esse duplo encontro – Trump na semana passada, Putin agora – revela é a consolidação de Xi Jinping como o árbitro central da ordem internacional, o que traz uma mistura de alívio e inquietação. Alívio porque um árbitro é melhor do que nenhum. Inquietação porque esse árbitro não foi eleito, não presta contas a nenhum fórum multilateral e tem seus próprios interesses no resultado do jogo. Resta saber qual o preço Putin estará disposto a pagar, e se Xi cobrará antes que a conta fique grande demais.