GUILHERME PIANEZZER - Professor de matemática financeira, doutor em métodos numéricos e professor-tutor dos cursos de exatas do Centro Universitário Internacional Uninter

Dados da Organização Internacional do Trabalho mostram que jornadas excessivas estão associadas ao aumento de estresse, adoecimento mental e acidentes de trabalho. Um estudo conjunto da OIT e da OMS estimou que longas jornadas contribuíram para mais de 745 mil mortes anuais no mundo relacionadas a AVC e doenças cardíacas. Ao mesmo tempo, o Brasil registra crescimento contínuo de afastamentos ligados à saúde mental, especialmente ansiedade e burnout.


Durante muito tempo, trabalhar seis dias para descansar apenas um foi tratado como algo normal no Brasil. A chamada jornada 6x1 se tornou parte da rotina de milhões de trabalhadores do comércio, serviços, supermercados, restaurantes, transporte e atendimento. Mas, em um mundo profundamente transformado pela tecnologia, pela automação e pelas novas formas de produção, refletimos: ainda faz sentido organizar o trabalho da mesma forma que décadas atrás?


O debate ganhou força nas redes sociais e no meio político, mas muitas vezes aparece reduzido a uma disputa simplista entre trabalhadores e empresários. A realidade econômica, porém, é mais complexa. Existem setores em que jornadas menores já demonstram ganhos claros de produtividade e qualidade de vida. Em outros, mudanças bruscas podem gerar aumento de custos, pressão operacional e dificuldades reais de adaptação.


Experiências internacionais vêm chamando atenção justamente por mostrarem que produtividade não depende apenas do tempo trabalhado. Na Islândia, testes realizados entre 2015 e 2019 com redução de jornada envolvendo cerca de 1% da população economicamente ativa apontaram manutenção ou aumento de produtividade em diversos setores, além de melhora significativa na qualidade de vida dos trabalhadores. No Reino Unido, um experimento com semana de quatro dias realizado em 61 empresas mostrou redução de faltas, menor rotatividade e manutenção da produtividade na maior parte dos casos.


Mas existem setores cuja dinâmica é muito diferente. Hospitais, aeroportos, supermercados, hotelaria, segurança e transporte funcionam praticamente de maneira contínua. Uma redução ampla de jornada nessas áreas exigiria reorganização de escalas, contratação de equipes adicionais e aumento de custos operacionais – algo especialmente sensível para pequenas empresas, que já operam com margens reduzidas.


Existe uma área da matemática, a Teoria dos Jogos, que ajuda a entender esse cenário. Ela estuda como pessoas, empresas e instituições tomam decisões quando dependem uma das outras. Um dos conceitos mais conhecidos é o chamado Equilíbrio de Nash, criado pelo matemático John Nash. Em termos simples, esse equilíbrio acontece quando todos continuam fazendo a mesma coisa porque acreditam que mudar sozinhos seria arriscado.


De certa fora, a jornada 6x1 funciona assim. Muitas empresas mantêm esse modelo porque o mercado inteiro opera de maneira semelhante. Trabalhadores aceitam porque poucas alternativas estão disponíveis. O sistema continua funcionando, ainda que produza desgaste físico e mental crescente. É um equilíbrio estável, mas não necessariamente eficiente.


Outro conceito importante é o Ótimo de Pareto, que representa uma situação em que alguém melhora sem provocar perdas significativas para os demais. Talvez esse seja o verdadeiro desafio da discussão atual: encontrar formas de melhorar a qualidade de vida sem comprometer a sustentabilidade econômica das empresas.


E isso provavelmente não será alcançado com soluções idênticas para todos os setores. Algumas atividades conseguem migrar mais rapidamente para jornadas mais equilibradas graças à automação e ao aumento de produtividade. Outras dependem de transições graduais, adaptação operacional e novas formas de organização no trabalho.


O erro talvez esteja justamente nos extremos. Tratar qualquer mudança como ameaça econômica inevitável ignora os impactos reais do cansaço, do adoecimento e da alta rotatividade sobre a própria produtividade. Por outro lado, imaginar que toda atividade econômica pode funcionar da mesma forma com menos horas de trabalho também simplifica um problema muito mais amplo.

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Portanto, a discussão sobre o fim da jornada 6x1 não é apenas trabalhista. É um debate sobre produtividade, saúde, tecnologia e sobre a forma como uma sociedade decide distribuir o tempo entre trabalho, descanso e vida pessoal.

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