MÁRCIA ANDRADE - Gerente de Economia Criativa do P7 Criativo

A criatividade brasileira já provou que existe. O que ainda falta é tratá-la como estrutura. Em um país capaz de transformar escassez em linguagem, território em cultura e diversidade em repertório econômico, reduzi-la a inspiração, talento individual ou recurso de comunicação significa desperdiçar uma das nossas principais forças de desenvolvimento.


A realização recente do World Creativity Day reafirmou essa mudança em escala. Mais do que uma agenda de palestras, painéis, oficinas e encontros, o evento é o maior festival colaborativo de criatividade do mundo, criado para celebrar o Dia Mundial da Criatividade e Inovação, reconhecido pela ONU em 21 de abril. Ele aproxima cidades, anfitriões locais, instituições e comunidades de debates sobre inovação, cultura, economia criativa e transformação social.


Esse formato desloca a discussão do campo da abstração. O avanço aparece na qualidade das conversas, na diversidade dos atores envolvidos e na capacidade de relacionar ideias a impacto econômico, social e territorial. A inspiração genérica cede espaço a temas mais difíceis e necessários, como financiamento, escala, formação de público, mensuração de resultados e articulação entre setores.


No Brasil, essa virada tem peso especial. O país produz repertório cultural em abundância, mas ainda cria pouca estrutura para convertê-lo em política, renda, tecnologia, formação e permanência. Há talento distribuído, mas acesso concentrado. Há vocações locais poderosas, mas pouca integração entre cultura, urbanismo, turismo, educação, comunicação e desenvolvimento econômico.


Nesse processo, os anfitriões locais cumprem um papel central. São eles que conectam a agenda global aos desafios de cada cidade, ativam redes e dão forma concreta ao que poderia permanecer apenas como discurso. A descentralização das narrativas mostra que inovação não nasce apenas nos grandes centros. Ela também emerge de ecossistemas capazes de reconhecer e articular seus próprios ativos culturais. Belo Horizonte é um exemplo desse movimento, ao fortalecer conexões entre cultura, economia criativa e identidade urbana.


O paralelo com o SXSW ajuda a situar melhor esse papel. O festival de Austin se consolidou como vitrine global de tendências, da inteligência artificial aplicada ao cotidiano à economia da experiência e às novas formas de trabalho. Para quem observa a partir do Brasil, porém, muitos sinais chegam como protótipos formulados em outro ambiente econômico, institucional e tecnológico. A tarefa passa a ser traduzir essas referências para uma realidade marcada por desigualdade, informalidade, restrições de financiamento e diversidade social.


O World Creativity Day opera em outra chave. Em vez de apenas projetar futuros, aproxima repertórios internacionais de contextos próximos. Seu valor está menos em anunciar a próxima grande tendência e mais em perguntar como uma comunidade, uma cidade ou uma rede concreta pode se apropriar dela. Prototipar exige recursos para experimentar. Apropriar exige escuta, adaptação e compromisso com a viabilidade.


Talvez esteja aí sua principal contribuição: democratizar a criatividade como ferramenta de transformação. Ao conectar tendências amplas a realidades específicas, o evento amplia quem participa da construção do ecossistema e mostra que inovação não é exclusividade de poucos. Ela nasce de conexões, repertórios e capacidades coletivas.


Ainda assim, há um risco evidente. Eventos de grande mobilização reúnem pessoas, criam entusiasmo e dão visibilidade a agendas relevantes. O problema começa quando a energia se encerra no próprio encontro. Para ocupar lugar estrutural, a criatividade precisa atravessar o calendário e se converter em política pública, estratégia empresarial, formação continuada, indicador de impacto, modelo de cooperação e decisão orçamentária.

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O Brasil não sofre por falta de criatividade. Sofre por ainda tratá-la de modo episódico, disperso e, muitas vezes, ornamental. Ela deixou de ser uma tendência a ser observada. É estratégia. O desafio é fazer com que essa potência não se disperse em entusiasmo passageiro, mas se converta em prática, política e permanência.

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