Os conterrâneos de Jesus sempre altercavam com Ele, particularmente os religiosos cristalizados na própria mundividência. Agiam apenas por interesses, permaneciam aprisionados por não conseguir estabelecer diálogos capazes de gerar entendimentos. Ilustrativa é a passagem narrada pelo evangelista João, quando, nos arredores do templo de Jerusalém, Jesus revela que Ele é a luz do mundo, assegurando que quem o segue não andará na escuridão. Aos que creram Nele, garantiu: se permanecerem na Sua palavra conhecerão a verdade, e pela verdade experimentarão a verdadeira liberdade. Ao revelar-se como a verdade, Jesus aponta para além de conceitos especulativos. Ensina o que significa segui-Lo: compreender a própria vida como oferta de si mesmo, a exemplo do que fez Jesus, no alto da cruz. Conhecer, pois, a verdade ensinada por Cristo remete cada discípulo a avaliar a própria conduta, qualificando-se, sempre mais, no exercício da cidadania.


Avaliar a própria conduta é enorme desafio no contexto da vida familiar, nos ambientes das instituições e, especialmente, no mundo da política. A esfera política tem importância determinante no desenvolvimento integral da sociedade, mas se perverteu em arena de posicionamentos e interesses que desconsideram o bem comum. Constitui dever cristão resgatar e promover formas de exercício da cidadania que priorizem o bem comum, desautorizando jogos ideológicos que somente alimentam polarizações. A escalada das polarizações chega ao lastimável ponto de prejudicar o adequado tratamento de assuntos que são de interesse da população, com prejuízos ao exercício da representatividade, tornando-a contaminada por vícios e, consequentemente, sem qualidade. Gesta-se, assim, um contexto de poucas opções, diante do desafio de se escolher representantes para o exercício do poder.


O resultado é um cenário desolador também nos contextos eleitorais. Diante de discursos e de razões, a sociedade responde com uma descrença perigosa. A disputa entre siglas partidárias comprova essa situação desoladora. Essas legendas costumam oferecer ao eleitor nomes com atuações pouco relevantes nas instâncias de representação. Pessoas carentes de relevância também por não cumprirem o que disseram, ou por estarem envolvidas em atos de corrupção, por considerarem apenas os próprios interesses. Por isso mesmo, fala-se do alto custo para manutenção da máquina: são concedidas benesses inexplicáveis e inaceitáveis aos que ocupam cargos no poder, um peso para o bolso do cidadão. No exercício do poder, o interesse, frequentemente, restringe-se ao que leva a ganhos pessoais, em detrimento claro do bem comum. As consequências se manifestam de muitas formas, nas fragilidades de infraestrutura e de logística, com atrasos em obras, superfaturamentos e outros males.


Quando impera o egoísmo no exercício do poder, as ações são em favor de quem já tem muito, com o sacrifício dos pobres e evidente descaso em relação ao compromisso de ajudar a sociedade a avançar no desenvolvimento integral, sustentável. Por isso, convive-se com esta realidade: uma nação rica e pujante empobrecida pela incompetência de governos, daqueles que deveriam promover o direito e a justiça. Há evidente carência de uma cidadania qualificada, em todas as esferas, pela falta de competência humanística, chegando ao descalabro de se fazer política por meio de bate-boca, alimentando preconceitos, buscando validar a própria imagem por discursos iconoclastas, sem respeito ao semelhante. As condutas não são pautadas pelas razões que alicerçam a vida, compreendida como dom oferecido ao semelhante. Com a cidadania fragilizada, campeia um verdadeiro deboche no funcionamento das instituições, na formulação dos discursos e, sobretudo, no modo de agir. Valida-se como modelo a abominável e desastrosa conduta de fazer valer somente o próprio interesse.

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Outro deboche em relação à sociedade, com riscos cidadãos, é o populismo que aprisiona os pobres na condição de reféns, pontualmente oferecendo-lhes ajuda, mas sem o devido cuidado com seu desenvolvimento integral, comprometendo a cidadania qualificada, que busca garantir liberdade a todos. Compreende-se, portanto, que socorros emergenciais, necessários e inadiáveis, não podem ser instrumentos para retardar processos que, verdadeiramente, gerem a inclusão de todos no exercício da cidadania, permitindo que cada pessoa contribua na construção de uma sociedade justa e igualitária. Qualificar sempre mais a cidadania, no horizonte da verdade, é o caminho para que a sociedade possa discernir sobre líderes que tenham credibilidade, se capacitando para avançar rumo ao desenvolvimento integral.

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