Secretário executivo das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, Simon Stiell escolheu Paris para dizer o que os governos relutam em admitir publicamente: aqueles que lutaram para manter o mundo dependente de petróleo estão, por ironia brutal da história, acelerando a virada para as renováveis. A guerra no Oriente Médio e o estrangulamento do Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do consumo mundial de petróleo, fizeram o Brent ultrapassar em mais de 50% o nível do início do ano. O choque que deveria ser um argumento de autoridade dos países produtores tornou-se, na prática, o melhor comercial já feito para a energia limpa.

A lógica econômica que Stiell invocou em seu discurso ontem não é abstrata. Espanha e Paquistão, com matrizes renováveis mais robustas, foram poupados dos piores impactos da crise atual. China, Índia, Alemanha e Reino Unido aceleraram seus planos de transição por razões de soberania e segurança, não por idealismo climático. Na França, o financiamento para eletrificação está dobrando. Os números do secretário reforçam o argumento: em 2025, o investimento global em energia limpa deve ser o dobro do que vai para combustíveis fósseis; a geração solar cresceu 600 terawatts-hora em relação a 2024. A transição já deixou de ser promessa e é um processo em curso, ainda que desigual.

Mas Stiell foi preciso ao separar o que avança do que ainda trava. O recado mais duro não foi dirigido aos petro-Estados nem às corporações fósseis. A mensagem foi endereçada aos governos que, sob o pretexto de administrar a crise imediata, podem se prender a novos contratos de longo prazo com combustíveis fósseis.

A janela atual, alertou Stiell, é uma oportunidade, não uma licença para o retrocesso. E as consequências de perdê-la já têm nome e endereço: 45 milhões de pessoas ameaçadas de fome aguda com a escassez de fertilizantes decorrente da guerra; estagflação avançando sobre economias que não têm fôlego fiscal para absorver o golpe.

Não é a primeira vez que o mundo escuta esse diagnóstico. Da crise do petróleo nos anos 1970 aos choques que se repetiram a cada novo conflito geopolítico, o padrão é sempre o mesmo: promessas de independência energética que definham assim que o preço do barril arrefece. O que Stiell trouxe a Paris é a consciência de que essa janela tem prazo, e que a COP33, prevista para 2028, funcionará como uma prestação de contas objetiva sobre se os compromissos assumidos saíram do papel.

A agenda concreta que o secretário apresentou não deixa margem para o vago: cumprir a Nova Meta Coletiva Quantificada de financiamento climático, viabilizar o roteiro de US$ 1,3 trilhão, romper o vínculo entre tarifas de eletricidade e preços fósseis, investir em redes e armazenamento, e cortar emissões de metano com urgência. São medidas que exigem menos discurso e mais caixa.

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O pedágio de Ormuz está sendo cobrado agora. A questão que Stiell deixou sem resposta – até porque a resposta não cabe a ele – é quantos choques como esse serão necessários antes que a paralisia política deixe de ser a opção mais cômoda para os governos que ainda precisam ser convencidos.

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