O incidente que resultou na morte de uma cidadã brasileira e do filho no Sul do Líbano, sob ataque de Israel, veio lembrar que a guerra no Oriente Médio pode parecer remota e de interesse limitado para o Brasil – mas não é. Não apenas pela significativa população de origem libanesa e palestina que abrigamos e pela presença de cidadãos com dupla cidadania, mas também pelas conexões incontornáveis no mercado do petróleo e derivados, o Brasil tem muito a ganhar com uma pronta solução. E outro tanto a perder com o prolongamento do conflito iniciado pelo ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Antes de tudo, a morte da família brasileira-libanesa faz parte da tragédia vivida desde o reinício das hostilidades entre o Estado judeu e a milícia muçulmana xiita Hezbollah, aliada íntima do Irã. Nosso luto nacional retrata um aspecto que não deve ser esquecido ou menosprezado quando se olha para o conflito: como tem sido recorrente, desde a Segunda Guerra Mundial, é a população civil quem mais sofre com as guerras. E, não menos importante, mulheres e crianças compõem a maioria das vítimas.
No caso em questão, no Líbano, as circunstâncias do episódio desafiam a diplomacia brasileira a encontrar o tom exato de reação. A nota publicada sobre o episódio ilustra o dilema: condena os ataques indiscriminados de Israel, a pretexto do combate ao Hezbollah, mas coloca em plano semelhante as reações do movimento xiita libanês. No pano de fundo, consuma-se a ocupação israelense de uma faixa de território além da fronteira com o país vizinho, além da fronteira reconhecida internacionalmente.
De certo, o peso que a política externa vem assumindo – inclusive no debate eleitoral, de onde esteve ausente por mais de um século de vida republicana – atesta que o Brasil ocupa hoje um lugar inescapável no cenário global. É e tem sido solicitado, com frequência crescente, a mostrar a cara e a assumir responsabilidades, como potência emergente e um dos líderes do bloco geopolítico agrupado sob o guarda-chuva de Sul Global.
Com a eleição presidencial no horizonte próximo, e a campanha contida apenas pela aproximação da Copa do Mundo – como é da cultura do Brasil, a cada quatro anos –, a perspectiva de um conflito prolongado no Oriente Médio multiplica as incógnitas para o Planalto e o Itamaraty. De um lado, talvez o menos tensionado, a pressão crescente para tomar posição em uma crise que projeta impactos pelo mundo afora, a começar pelos custos da energia. De outro, as implicações políticas internas, já que o posicionamento do governo incide de maneira incontornável em setores do eleitorado.
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Seja esta ou aquela a motivação central, o certo é que a inserção do país no jogo mundial impõe que o governo de turno faça escolhas – independentemente das conveniências da agenda doméstica. Seria mais cômodo, talvez, postergar decisões que trazem em si mesmas oportunidades de ganhos e riscos de perdas. Mas o tempo não para, e a realidade não oferece pausas: de quem ocupa as posições de mando, a vida exige que as exerça.