O mundo vive uma corrida que vai definir o modo de vida no futuro. Se o século XX foi moldado pelo petróleo, a década de 2020 deu início à era dos minerais críticos e às terras raras. Lítio, nióbio, cobalto e neodímio não são apenas nomes na tabela periódica: eles são os alicerces da necessária transição energética, essenciais para a fabricação das baterias de carros elétricos, turbinas eólicas e chips de última geração. Diante da nova realidade, o cenário é de urgência para quem quer sair na frente. Nesse contexto, a concorrência entre as grandes potências, especialmente China e Estados Unidos, pelo controle das cadeias de suprimentos tecnológicos já foi parar no espaço.
A missão Artemis II, que neste mês de abril realizou uma trajetória ao redor da Lua, é o primeiro sinal dessa disputa mais visível para os cidadãos do globo. Ao focar em validar o sistema de transporte tripulado ao redor do satélite natural, ela se transformou na base para uma economia lunar que visa, a longo prazo, explorar esses materiais escassos na Terra. O sucesso obtido pela primeira missão tripulada da Nasa em mais de 50 anos – que levou quatro astronautas em seu voo – representa um marco no programa norte-americano. É o passo final antes do pouso humano em solo lunar, com o lançamento da Artemis III, onde a geologia rica da Lua vai passar a desempenhar o papel principal.
Se a briga já se estende para as esferas espaciais, cabe ao Brasil ocupar território. O país possui a terceira maior reserva de terras raras do mundo e precisa se posicionar diante dessa oportunidade histórica. O que está em jogo não é apenas a balança comercial, mas a possibilidade de saltar de mero exportador de commodities minerais para um protagonista na industrialização verde. A participação nacional tem que deixar de ser apenas a de cavar o solo e enviar o minério bruto para ser processado no exterior. É primordial atrair tecnologia para que o refino e a fabricação de componentes ocorram em solo brasileiro. No entanto, o desafio é colossal, uma vez que até mesmo a própria exploração ainda engatinha no Brasil. Além disso, outro ponto extremamente sensível e que exige total atenção é encontrar o caminho para extrair essa riqueza sem comprometer a preservação ambiental.
Não por acaso, a mineração carrega um estigma de degradação – fantasma que Minas Gerais conhece bem com as tragédias recentes de Mariana e Brumadinho. A questão global é que para conter o aquecimento global por meio de energias limpas, a saída é intensificar uma atividade invasiva para o meio ambiente. Nesse ponto, a gestão pública e o rigor técnico devem se encontrar. O governo brasileiro precisa consolidar leis que jamais flexibilizem a segurança. A exploração de minerais estratégicos deve ser acompanhada de planos rigorosos de recuperação de áreas degradadas e de sistemas constantes de monitoramento.
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O Brasil tem em mãos diversas cartas para colocar na mesa, mas precisa discutir de maneira ampla a sua atuação nesse campo. A exploração e o aproveitamento das terras raras e minerais críticos devem ser tratados como um projeto de Estado, e não de governo. Transformar o subsolo brasileiro em motor de inovação sem destruir as riquezas naturais é a equação a ser resolvida. O país pode usar os cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras que possui em favor da sustentabilidade global e da redução dos impactos das mudanças climáticas, além de garantir o seu desenvolvimento e crescimento econômico. Para isso, não pode mais demorar para definir políticas claras de incentivo, salvaguardas ambientais e investimentos tecnológicos essenciais.