Michelle Norberto Martins
Coordenadora de orientação educacional
Sheila da Silva Martins
Especialista em orientação educacional
Uma pesquisa do IBGE feita em 2026 afirma que quatro em cada 10 estudantes brasileiros de 13 a 17 anos afirmam já ter sido alvos de bullying, e 27,2% dos alunos nessa faixa etária já sofreram alguma forma de ofensa duas ou mais vezes. Os debates sobre bullying, no entanto, não podem se limitar aos atos de intimidação em si. É necessário ampliar esse escopo, incluindo relações interpessoais, pertencimento, empatia, limites e, talvez, sobretudo, a responsabilidade coletiva de construir ambientes em que o respeito seja um valor inegociável.
Uma escola é, por essência, um espaço de formação integral. Nela, crianças e adolescentes aprendem conteúdos acadêmicos relevantes para seu desenvolvimento intelectual, mas também constroem sua forma de conviver, de lidar com frustrações, de reconhecer diferenças e de se posicionar diante do outro. Ignorar essa dimensão é reduzir o papel da educação a conteúdos programáticos.
Nesse contexto, a orientação educacional ocupa um lugar essencial. Seu papel não se restringe à intervenção diante de casos já instalados, mas também é indispensável na escuta, na mediação, no acompanhamento e na promoção de estratégias que favoreçam relações mais saudáveis no ambiente escolar. É nesse ponto que reside sua força.
Não podemos nos esquecer de que a prevenção não é complementar, mas central no processo de construção de uma escola mais humana. Esse processo acontece quando a escola não banaliza comportamentos ofensivos e assume, de forma intencional, a tarefa de conscientizar para o respeito. Ações de convivência, rodas de conversa, desenvolvimento socioemocional e diálogo constante com os estudantes não são acessórios, são caminhos para reduzir violências e fortalecer vínculos.
Quando a escola atua de forma clara e coerente na construção de uma cultura de respeito, ela não apenas intervém em casos de violência, mas também reduz as condições que permitem que essas práticas sigam se repetindo. Nesse cenário, a escuta ativa do orientador educacional é fundamental, pois muitas das demandas dos estudantes estão relacionadas a aspectos emocionais que nem sempre são expressos de forma direta. Um olhar atento, cuidadoso e acolhedor permite que o estudante se sinta seguro para se expressar e fortalece vínculos de confiança no ambiente escolar. Trata-se, portanto, de um trabalho que exige constância, atenção e corresponsabilidade.
Muitas vezes, o sofrimento de quem é alvo não aparece imediatamente em palavras. Ele se manifesta, pelo contrário, em silêncios, ausências, inseguranças, mudanças de comportamento e queda no rendimento. Por isso, atitudes agressivas não podem ser relativizadas como “brincadeiras” ou “coisas da idade”. É preciso reconhecer esses sinais com seriedade e agir de maneira cuidadosa e responsável.
Em tempos marcados pela intensa presença dos estudantes no ambiente digital, esse desafio cresce. O cyberbullying prolonga humilhações, amplia exposições e exige da escola e das famílias ainda mais atenção. Educar para a convivência, hoje, também significa orientar para o uso responsável da tecnologia, para o cuidado com a palavra e para a compreensão de que a violência virtual também produz sofrimento real.
Além disso, o cyberbullying apresenta um agravante importante: sua capacidade de ultrapassar o tempo e o espaço da escola. Enquanto a violência presencial muitas vezes se restringe a um grupo ou a um momento específico, no ambiente virtual a exposição pode se espalhar rapidamente, atingir um número maior de pessoas e permanecer circulando por mais tempo, intensificando o sofrimento de quem é alvo. Essas formas de violência comprometem a autoestima, o senso de pertencimento e a segurança emocional dos estudantes. Por isso, o enfrentamento ao cyberbullying exige orientação contínua e ações educativas que ajudem crianças e adolescentes a compreender que o uso da tecnologia também deve ser guiado por ética, responsabilidade e respeito.
A parceria com as famílias também é indispensável. Quando a escola e os responsáveis compartilham valores, alinham orientações e mantêm canais de diálogo abertos, os estudantes percebem que há uma rede de adultos comprometida com sua formação e proteção.
Enfrentar o bullying e o cyberbullying é não permitir que a dor do outro seja invisibilizada e assumir que a convivência ética e respeitosa é também uma aprendizagem. Essa reflexão reforça um ponto central: a escola não pode apenas reagir à violência, ela precisa ter o propósito de formar, desde o princípio, relações mais éticas, conscientes e respeitosas.
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É necessário reafirmar um compromisso: o de uma escola que educa para a convivência. Uma escola que escuta, intervém, orienta e cuida. Uma escola que entende que toda forma de humilhação precisa ser enfrentada com seriedade e que cada estudante tem o direito de aprender e se desenvolver em um ambiente de segurança e respeito.
