Prevista para pousar no planeta Terra na próxima sexta-feira, a missão Artemis II carrega consigo um peso histórico inegável para a exploração espacial. Não é por acaso: afinal, a humanidade não visita o seu satélite desde 1972, quando a Apollo 17 concluiu a última das missões que levaram o homem à Lua.
Mas, apesar de histórica em vários sentidos, a verdadeira inovação da Artemis II não está no design do foguete ou nas observações históricas do lado oculto da Lua. O que realmente faz desta missão um marco histórico é quem está sentado na cabine de comando. Ao levar a primeira mulher, o primeiro homem negro e o primeiro não-norte-americano para o espaço profundo, a Nasa decreta o fim de uma era.
É claro: pessoas de outros países, mulheres e negros participam há décadas de missões na Estação Espacial Internacional, sempre com razoável sucesso. Mas visitar o espaço profundo e a Lua era, até então, um privilégio restrito.
Basta olhar pelo retrovisor. Quando o homem pisou na Lua, nos anos 1960 e 1970, o espaço era o clube mais restrito do planeta. Os heróis do programa Apollo tinham um perfil padronizado: homens, brancos, americanos e militares. Eles eram o retrato exato de uma superpotência em plena Guerra Fria, em um país que, apesar de todos os avanços tecnológicos, ainda era rasgado pela segregação racial e pelo machismo. O famoso "grande salto para a humanidade" foi, na prática, dado por uma parcela bem pequena dela.
A escalação da Artemis II vira essa página. A presença da engenheira Christina Koch, do piloto Victor Glover e do canadense Jeremy Hansen ao lado do comandante Reid Wiseman corrige uma distorção histórica. E isso está longe de ser apenas uma jogada de relações públicas. É o reconhecimento prático de que explorar o universo não deve ser um direito reservado a um único grupo demográfico.
É preciso, porém, conter a euforia e olhar para a foto oficial da missão com uma dose de realismo. A presença de um astronauta de fora dos Estados Unidos é um avanço, mas, convenhamos: em termos geopolíticos e culturais, um canadense está muito próximo dos EUA – no que pesem as atuais rusgas entre os dois países causadas pela desastrosa administração do presidente Donald Trump.
Ainda falta muita gente nessa viagem. Os representantes do Sul Global, por exemplo, seguem sem ter um lugar nessas jornadas rumo à imensidão do espaço. A verdadeira pluralidade de nações que não orbitam a influência direta de Washington continua ignorada.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
A Artemis II é um começo. Um passo tardio, sem dúvida, mas é alguma coisa. A missão mostra que as agências espaciais finalmente entenderam que de nada adianta possuir a melhor tecnologia do século 21 se continuarem operando com a exclusividade do século passado. É um avanço que pode e deve ser ampliado no futuro. Mas, para que a humanidade realmente consiga se enxergar por inteiro quando olhar para as estrelas, a porta dessa nave ainda precisará se abrir muito mais.