Um novo grupo de conselheiros acaba de ser formado pelo papa Leão 14 para debater questões centrais da existência humana. Entre os 11 nomes escolhidos para o dicastério, há um brasileiro: o climatologista Carlos Nobre, referência internacional sobre os impactos do aquecimento global, sobretudo em florestas tropicais. Nobre junta-se a membros da Igreja Católica, de organizações internacionais e da sociedade civil que se debruçam sobre temas como emergência humanitária, saúde e direitos humanos. Sua entrada no seleto grupo evidencia, mais uma vez, que mitigar a crise climática não pode ser preocupação exclusiva de cientistas e que o Brasil exerce papel-chave nessa empreitada.


“Sinto que fui chamado como cientista para trazer o valor de buscarmos soluções rápidas", comentou Carlos Nobre sobre a escolha. Não há dúvidas quanto à expertise do novo conselheiro do Vaticano e à urgência das respostas. O paulista de 75 anos tem uma carreira marcada por prêmios nacionais e internacionais, gestões e pesquisas em órgãos ambientais estratégicos e avançados títulos acadêmicos. Ele é um dos autores do Quarto Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), que ganhou o Nobel da Paz em 2007 pelo alerta sobre os riscos do aquecimento global.


Na ocasião, o Comitê Norueguês do Nobel argumentou que os cientistas e o ex-vice-presidente estadunidense Al Gore, com que dividiram o prêmio, eram laureados pelos "seus esforços de ampliar e disseminar um conhecimento amplo sobre as mudanças climáticas provocadas pelo homem e por estabelecer as bases para reverter tais mudanças”. Quase 20 anos depois, a proximidade de um ponto de não retorno sinaliza que não houve mudança de rota e a atual gestão na Casa Branca, que o abismo climático não é considerado por todos.


A Amazônia não escapa da crise, lembrou Nobre em entrevista em meio aos preparativos da COP 30: “Se esse limite for ultrapassado, até 70% da floresta pode se degradar irreversivelmente nas próximas décadas”. A liberação de mais de 200 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera, impulsionando extremos climáticos pelo mundo, e o aumento de risco de novas epidemias em razão da destruição do bioma foram apontados pelo cientista como impactos críticos do fenômeno.


Há de se reconhecer a queda significativa do desmatamento da Amazônia na gestão de Marina Silva, que deixou a pasta na semana passada, assim como o cerco ampliado a crimes ambientais, a criação de unidades de conservação e os avanços no financiamento climático. Por outro lado, a falta de consenso sobre os mapas do caminho para o fim dos combustíveis fósseis e o desmatamento embarreirou a promessa de que Belém sediaria a maior COP da história, como havia planejado o presidente Lula.

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Entre os destaques positivos da conferência do clima em novembro último, estão o fortalecimento do fundo de proteção das florestas tropicais, a criação de uma meta global de adaptação e a maior atenção a questões de interesse de indígenas e afrodescendentes. Nesse sentido, a escolha de Carlos Nobre para o alto órgão consultivo do Vaticano impulsiona, de certa forma, passos dados em Belém. É imprescindível que a crise climática paute o debate de instituições diversas e que a pluralidade de vozes marque essa busca pela sobrevivência do planeta.

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