Dayane Kelly Sabec-Pereira - Doutora e pós-doutora em neuroanatomia, mestre em ciências da saúde e especialista em inovação e tendências da educação
O Brasil repete com frequência uma frase que se tornou quase um mantra social: “A educação é o caminho para mudar de vida”. A afirmação é verdadeira, mas incompleta. Para milhares de jovens brasileiros, o dilema não está em escolher qual curso seguir, mas em decidir, diariamente, entre estudar ou pagar as contas.
Mesmo com a recuperação do mercado de trabalho, a desigualdade geracional permanece evidente. A taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos fechou 2025 em 11,4%, mais do que o dobro da média nacional de 5,1%, segundo o IBGE. O risco de ficar sem trabalho é justamente maior na faixa etária típica de ingresso no ensino superior.
A equação é simples: sem trabalho, não há renda; sem renda, não há permanência na universidade. Mesmo nas instituições públicas, há custos inevitáveis com transporte, alimentação, moradia e material acadêmico. Por isso, a evasão raramente decorre da falta de capacidade intelectual. Ela nasce, sobretudo, da falta de condições financeiras.
Apesar disso, o debate público ainda insiste em tratar o acesso ao ensino superior como uma questão de mérito individual. Passou no vestibular? Conseguiu uma bolsa? Então “venceu”. O que se ignora é que entrar não significa permanecer.
Pierre Bourdieu já demonstrava que o sistema educacional tende a reproduzir desigualdades ao valorizar o capital cultural herdado das famílias. Jovens de classes populares chegam ao ensino superior com menos recursos, menor rede de apoio e menor familiaridade com o ambiente acadêmico.
Os dados do Censo da Educação Superior de 2024 ilustram esse descompasso. Apenas 33% dos jovens que concluíram o ensino médio ingressaram na universidade no ano seguinte. Entre os que entram, muitos não concluem: a evasão chega a 24,1% na educação a distância e a 9,5% no ensino presencial.
Há ainda um paradoxo silencioso. Em momentos de incerteza econômica, cresce a procura por qualificação, mas muitos estudantes aceitam trabalhos precários para financiar os próprios estudos. Trabalham o dia todo, estudam à noite e vivem sob pressão constante. A sobrecarga compromete o rendimento acadêmico e alimenta a evasão.
Experiências recentes mostram, porém, que esse ciclo pode ser rompido. No interior do Paraná, atuo em uma faculdade inserida em um ecossistema de inovação com mais de 130 empresas. Nesse ambiente, mais de 90% dos estudantes alcançam empregabilidade já a partir do primeiro ano de graduação.
A lógica é simples: o trabalho deixa de competir com os estudos e passa a ser uma extensão deles. Estágios, projetos aplicados e parcerias com empresas permitem que os estudantes aprendam enquanto trabalham. O resultado é uma formação mais conectada à realidade profissional e uma solução concreta para a permanência estudantil.
Programas de assistência, como o Pnaes, são importantes, mas insuficientes diante do subfinanciamento crônico. O desafio exige integrar educação, inovação e desenvolvimento regional. Universidades conectadas a empresas e ao poder público criam círculos virtuosos: estudantes permanecem na graduação, empresas encontram mão de obra qualificada e regiões retêm talentos.
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Enquanto tratarmos a universidade apenas como um prêmio individual conquistado por mérito, continuaremos naturalizando a exclusão. A questão central não é se o jovem brasileiro quer estudar, mas se o país garante que ele possa fazê-lo sem abrir mão da sobrevivência.