Chocou a comunidade dos 2 bilhões de cristãos espalhados pelo mundo a abordagem das forças de segurança de Israel que impediu o patriarca latino da Terra Santa, o cardeal Pierbattista Pizzaballa, de se deslocar até a igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, para celebrar a missa do Domingo de Ramos. O alcance da arbitrariedade pode ser medido pela reação do Patriarcado Latino, que representa a Santa Sé na Terra Santa e exerce autoridade sobre parte dos lugares sagrados para a cristandade: "Pela primeira vez em séculos, os líderes da Igreja foram impedidos de celebrar a missa do Domingo de Ramos no Santo Sepulcro", disse, em comunicado o Patriarcado Latino, que é custodiado pela ordem franciscana para zelar, em nome do Vaticano, pelos lugares sagrados cristãos na Cidade Sagrada dividida com judeus e muçulmanos.


Justificativas formais invocando a guerra no Oriente Médio – iniciada em 28 de fevereiro com ataques unilaterais e não provocados de Israel e EUA ao Irã – não alteram os fatos. Desde 1967, Israel ocupa, à revelia da comunidade internacional, a Cidade Velha de Jerusalém. Por resolução da ONU, adotada em 1947 para assentar os povos que disputavam a terra da então Palestina, o berço de templos como o Muro das Lamentações, a Esplanada das Mesquitas e o Santo Sepulcro, deveria estar sob controle internacional. Desde a guerra árabe-israelense de 1967, Jerusalém vive sob ocupação de Israel, que proclamou sua anexação unilateral.


O incidente do Domingo de Ramos não é inédito, embora de gravidade inaudita. Em si, resume o momento retratado hoje na ofensiva de Israel e EUA contra o Irã. Mais especificamente, a anunciada ocupação israelense do sul do Líbano e, embora quase ignorada pela imprensa, a escalada de tropelias de colonos judeus contra a população árabe da Cisjordânia, parte essencial do território destinado pela ONU, em 1947, para um Estado palestino destinado a conviver em paz e segurança com o lar nacional judaico.


Desde que decretou a anexação de Jerusalém Oriental, de maioria árabe, Israel se sente, cada vez mais, senhor das normas de convivência na cidade que é sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. Na prática, sente-se isento, como Estado reconhecido e acolhido na ONU, de cumprir as resoluções que lhe dizem respeito. Não apenas ignora e atropela o status dos locais sagrados: trata-os como assunto de uma soberania própria que se arroga, ao arrepio da comunidade internacional.


Protestar contra as restrições que impediram o patriarca latino de celebrar no Santo Sepulcro a missa que dá início aos festejos da Semana Santa – o período do ano mais importante para os cristãos – é muito mais do que uma arbitrariedade banal, dessas corriqueiras na trajetória de regimes autoritários. E elas não atingem apenas a Igreja Católica, que, por ironia, é representada na Terra Santa pela ordem fundada por São Francisco, arauto da paz e artífice de acordos diplomáticos que permitiram a presença cristã na Jerusalém dominada pelos muçulmanos.


Ao reincidir no comportamento colonialista e unilateral, pelo qual ignora o direito internacional em nome das próprias conveniências militares e de segurança, Israel se isola do concerto das nações. Abraça, como os Estados Unidos de Donald Trump, a opção pela "lei do mais forte", pela lógica do "chora menos quem pode mais".

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A história da humanidade oferece inúmeros exemplos desse tipo de atitude. Nenhum deles prosperou por muito tempo.

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