A saúde pública brasileira convive com uma realidade preocupante: a prevenção ainda ocupa um espaço menor do que deveria nas políticas de governos e nos lares espalhados pelo país. Embora especialistas insistam na importância de antecipar problemas, a lógica predominante continua sendo a de reagir quando a doença se instalou. Essa dinâmica gera custos elevados, pressiona hospitais e reduz as chances de tratamentos eficazes para milhões de pessoas.
Na última sexta-feira, o ministro Alexandre Padilha convocou para o Dia D de imunização contra a gripe, realizado no sábado, alertando para a importância da proteção como forma de evitar a proliferação dos vírus da enfermidade. Nessa mesma linha, a chegada de abril traz uma série de datas que vão destacar a necessidade do cuidado com o corpo. O mês já começa com a Semana da Saúde no Brasil, celebrada entre 2 e 7 com o objetivo de promover hábitos saudáveis. Depois, será a vez de conscientizar a população sobre doença de Chagas, hemofilia, meningite, malária e hipertensão arterial, além da Semana de Vacinação nas Américas.
O país possui um dos maiores programas públicos para esse tipo de atenção do mundo, o Sistema Único de Saúde (SUS), que em sua base valoriza a atenção básica e a prevenção com ações como acompanhamento familiar e aplicação de vacinas. Esse conjunto de iniciativas já comprovou que é possível reduzir significativamente a incidência de doenças quando se atua de forma antecipada. Ainda assim, a prática cotidiana revela que esses instrumentos nem sempre recebem os recursos e a prioridade necessários.
Parte do problema está na própria estrutura do sistema, que não consegue se desvencilhar de um círculo vicioso estabelecido há décadas e acaba absorvido pelo atendimento de urgência. Filas nos prontos-socorros e nos postos, superlotação nos leitos, escassez de profissionais e falta de medicamentos tornam o tratamento imediato um desafio constante. Com isso, a prevenção – que exige planejamento, continuidade e investimento de longo prazo – vai perdendo espaço.
Outro fator relevante é a cultura de buscar atendimento apenas quando surgem sintomas – a ausência de exames periódicos e de consultas regulares contribui para que as doenças avancem. Esse comportamento reflete as dificuldades de acesso, as desigualdades sociais profundas, as falhas de informação e a ineficiência das campanhas de conscientização.
Do ponto de vista econômico, investir em prevenção é comprovadamente mais eficiente. Um dos impactos aparece com os gastos menores em procedimentos de alta complexidade, complicações e internações. Além disso, levantamento mostra que cada R$ 1 adicional investido em saúde pública gera retorno de R$ 1,61 no Produto Interno Bruto (PIB). Alinhado a isso, a diminuição das despesas diretas e a recuperação da capacidade produtiva fazem com que cada R$ 1 aplicado no setor resulte em R$ 1,23 em renda a mais para as famílias.
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O quadro que se coloca é técnico, político e cultural, impondo esforços amplos e complexos. O Brasil demonstrou, em diferentes momentos, que valorizar a saúde pública transforma indicadores sociais. Nesse contexto, reforçar a prevenção não é apenas uma questão médica, mas uma decisão estratégica para o desenvolvimento. A qualidade de vida de todo cidadão, garantida a partir do fortalecimento do cuidado primário e permanente, é um direito que o país não pode mais negligenciar.