O Rio de Janeiro vive mais um capítulo de sua longa decadência política, agora elevado ao paroxismo com a renúncia de Cláudio Castro e a consequente inelegibilidade que encerrou de forma melancólica seu ciclo no Palácio Guanabara. Não se trata de um episódio isolado, mas da expressão mais recente de uma engrenagem institucional que vem falhando reiteradamente, com crises políticas e administrativas em cadeia. O estado, que já foi vitrine política e cultural do país, afunda-se num pântano onde se misturam corrupção estrutural, desorganização administrativa e, de forma ainda mais alarmante, a crescente infiltração do crime organizado nas estruturas de poder.


A sucessão improvisada expõe esse quadro com crueza. Sem vice-governador, com o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) afastado e o comando do Executivo entregue interinamente ao presidente do Tribunal de Justiça, o desembargador Ricardo Couto, o estado vive uma situação de vacância institucional rara e perigosa. A solução prevista – uma eleição indireta pela Alerj – deveria ser um mecanismo de estabilização. Contudo, transformou-se em mais um fator de incerteza e descrédito.


A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que formou maioria pela votação secreta na eleição indireta, embora juridicamente defensável, revela o grau de desconfiança que cerca o processo político fluminense. Ao permitir que deputados escolham o futuro governador sem transparência, a Corte reforça a percepção de que o jogo se dá nos bastidores, longe do escrutínio público. A divergência aberta por ministros como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, favoráveis à eleição direta, evidencia que não se trata apenas de uma questão técnica, mas de um dilema político sobre legitimidade.


O problema de fundo, entretanto, vai além do método de escolha. O que está em jogo é a própria capacidade de o Estado do Rio de Janeiro ser governado dentro dos marcos republicanos. A captura de parcelas do poder por interesses ilícitos e pelo crime organizado corrói as bases da representação política e compromete a autoridade das instituições. Quando facções criminosas controlam parte considerável das principais cidades, economias locais e, indiretamente, processos eleitorais, a democracia deixa de ser plenamente funcional. Trata-se de uma patologia política.


Esse quadro não surgiu de repente. Ele é resultado de décadas de permissividade, fisiologismo e ausência de reformas estruturais. Governos sucessivos falharam em estabelecer mecanismos eficazes de controle, transparência e responsabilização. A Assembleia Legislativa, que agora terá a responsabilidade de eleger um governador-tampão, carrega também o peso da própria crise de credibilidade. Sem uma profunda mudança de comportamento, corre o risco de apenas reproduzir as práticas que levaram o estado a essa situação. A glamourização da malandragem é o caldo de cultura para a baixa política.


É nesse contexto que as eleições de outubro ganham centralidade. Mais do que uma disputa convencional, elas representam uma oportunidade – talvez a última de iniciar um processo de reconstrução institucional. Não haverá solução mágica nem imediata. O Rio precisa de um projeto político que combine enfrentamento firme ao crime organizado, reestruturação das finanças públicas e, sobretudo, reconstrução da confiança entre governantes e governados. Ou seja, um projeto de resgate da boa política, austeridade e inovação administrativas e reformas das estruturas de gestão.

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Emergir do pântano da baixa política exige mais do que trocar nomes. Requer romper com padrões arraigados de clientelismo e opacidade. Significa adotar práticas de governança baseadas em mérito, transparência e responsabilidade fiscal. Implica também em fortalecer os órgãos de controle e garantir que atuem com independência e vigor.

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