A dignidade humana é sagrada e, por isso mesmo, inegociável, exigindo que segmentos sociais e governamentais a respeitem, com iniciativas capazes de fortalecer os direitos fundamentais de cada pessoa. Na lista irretocável de direitos está o capítulo sobre a moradia, que tem lugar na pauta social e política, também no âmbito da fé e no arcabouço das leis morais. Ao ser cuidadosamente analisada a complexa temática da moradia, pode-se constatar exigências morais importantes: os cidadãos e, particularmente, aqueles que professam a fé cristã têm o dever de ajudar a superar cenários vergonhosos e inaceitáveis relacionados ao déficit de moradia digna.
A Campanha da Fraternidade 2026 dedica-se, exatamente, ao tema Fraternidade e Moradia, com indicações que auxiliam cada pessoa a viver uma necessária conversão pessoal e social. O déficit habitacional é uma ferida aberta na sociedade e uma afronta aos ensinamentos da fé cristã: o trabalho para promover moradia digna fundamenta-se na certeza de que cada pessoa é criada à imagem e semelhança de Deus.
Moradia digna é condição essencial para que o ser humano cumpra o seu chamado, realize a meta de sua existência. É preciso compreender a grandeza de cada pessoa com seu direito inerente de ter condições para realizar-se plenamente a partir do dom de si mesmo.
A casa constitui cenário essencial para que o ser humano compreenda sua identidade e vocação humana. A moradia digna possibilita a sociabilidade constitutiva do ser humano, fundamentada na relação de origem entre o homem e a mulher, união que constitui a primeira forma de comunhão entre as pessoas. Trata-se de um princípio antropológico relevante na Doutrina Social da Igreja Católica, que compreende a solidariedade como princípio social e virtude moral. A solidariedade, aprendida desde o contexto doméstico, deve iluminar a compreensão, o planejamento e as ações efetivas que buscam transformar a realidade, inclusive promovendo ações capazes de enfrentar o déficit de moradias dignas.
A solidariedade, princípio social, deve fundamentar as dinâmicas das instituições, permitindo superar os descompassos que, lamentavelmente, contaminam as relações entre as pessoas. Esse importante princípio social possibilita ainda oportunas e incidentes modificações legislativas, influenciando ordenamentos justos e regras de mercado mais humanizadas. A racionalidade pode e deve ser enriquecida sempre pela luz singular da solidariedade. Em vista das urgências operativas em favor dos pobres, o agir solidário deve ser valorizado como virtude moral, remédio para curar a doença da corrupção, dos desperdícios e das ostentações, dando lugar a sentimentos de compaixão.
A solidariedade impulsiona ações transformadoras que contribuem para uma ordem social justa, em vários âmbitos, inclusive na efetivação do direito à moradia digna. Prima-se pelo zelo e promoção do bem comum, caminho para mudanças significativas nas circunstâncias de opressão que ferem a dignidade humana. Compreende-se, pois, que há uma estreita ligação e intercâmbio entre solidariedade e bem comum. A destinação universal dos bens, a solidariedade e a igualdade configuram um mesmo horizonte para o caminho da sociedade. Por isso, a luta justa e urgente por moradia digna é pauta que envolve todos os cidadãos, constituindo itinerário para se cultivar a paz.
O Magistério da Igreja, amplamente, ressalta a importância da solidariedade, ensinando sobre os elos que unem todas as pessoas, igualmente dignas. Reconhecer essa igualdade partilhada por todos os seres humanos faz crescer a consciência cidadã do compromisso pelo bem de todos, particularmente quando está em jogo a qualidade e o respeito pela existência de cada semelhante. Ao se considerar a atual realidade, ferida pelo déficit habitacional, não cabem indiferenças, justificativas ideológicas, estreitezas partidárias e outros entraves.
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Urgente é a disposição para se dedicar aos que sofrem por falta de moradias. A Doutrina Social da Igreja inspira essa dedicação apontando a própria vida de Jesus, o homem novo, solidário até a morte de cruz. A vida do Mestre ilumine o horizonte quaresmal de todos, inspirando gestos de amparo aos que sofrem. Atitudes que expressam a força de conversão e são sinais pascais de esperança na construção de nova realidade. Um tempo novo onde o reconhecimento da sacralidade de cada ser humano consolide, sempre mais, o respeito ao direito à moradia digna.