“Tem coisa que só acontece no Rio de Janeiro. E não é força de expressão. O estado caminha para ter um terceiro governador sem voto direto. Nem eleito, nem escolhido pelo eleitorado. E ainda assim, tudo dentro da lei. É esse o detalhe que incomoda. O então governador, Cláudio Castro, está no fio da navalha no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Já há votos pela cassação por abuso de poder político e econômico, no caso envolvendo contratações suspeitas em ano eleitoral. Diante desse cenário, surge a velha manobra de Brasília de renunciar. Se for cassado, o estrago é maior. Perde o mandato, direitos políticos e ainda pode contaminar aliados. Ao renunciar, saiu pela porta lateral e tenta sobreviver politicamente. E o estado fica como? Na prática, sem governador e sem vice. O vice, Thiago Pampolha já saiu antes. Foi para o Tribunal de Contas do Estado (TCE) que não precisa de votos para mais nada. A Constituição estadual entra em cena com aquele roteiro que parece técnico, mas é profundamente político. Na teoria seria o presidente da Alerj, porém, Rodrigo Bacellar foi preso e afastado do cargo. Então, vai para o Tribunal de Justiça e, hoje, esse alguém é o desembargador Ricardo Couto de Castro, que já virou governador interino. Um magistrado, não eleito, comandando o Executivo. E ele tem prazo curto para convocar eleição indireta. Assim, quem escolhe o governador não será o povo. Serão os atuais deputados estaduais. Sim, eles votarão para eleger um governador tampão, eleito por meia dúzia de acordos de gabinete, para ficar até o fim do mandato. Tudo legal. Mas legalidade não é sinônimo de legitimidade. O Rio repete um padrão preocupante: governadores que caem, saem, são afastados, substituídos e o eleitor vai ficando cada vez mais distante da decisão. A política vira um jogo de sobrevivência jurídica, não de representação. E ninguém rasgou a Constituição. Ninguém deu golpe! O sistema funcionou exatamente como foi desenhado. Talvez esse seja o problema. Quando a regra permite esse tipo de arranjo, o erro não é exceção, é método. No fim das contas, o Rio terá um governador escolhido dentro da lei, mas fora das urnas. E isso diz muito mais sobre a crise da política do que sobre qualquer decisão judicial. Porque quando o voto vira detalhe, a democracia vira procedimento. E procedimento não governa ninguém.”
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GREGÓRIO JOSÉ
Belo Horizonte