A partir de amanhã, o mundo do futebol começa a conhecer as últimas seleções classificadas para a Copa do Mundo de 2026. Enquanto dentro das quatro linhas o momento é de expectativa positiva para os fãs do esporte, fora delas há receio quanto à realização do megaevento na América do Norte, especialmente nos Estados Unidos de Donald Trump.
A principal dúvida que ronda a próxima edição da Copa, a esta altura, deveria ser a classificação ou não da tetracampeã Itália, que enfrentará a repescagem europeia em busca de uma vaga. No entanto, a instabilidade geopolítica criada por Trump coloca em xeque a participação do Irã, seleção legitimamente classificada nas eliminatórias asiáticas, mas que pode ficar fora das disputas por conta da guerra em curso no Oriente Médio.
“A seleção iraniana de futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas realmente não acredito que seja apropriado que estejam lá, para a própria segurança deles”, escreveu o líder da Casa Branca na Truth Social, a mídia social criada por ele mesmo.
Enquanto isso, no site oficial do evento, a Fifa apresenta um menu chamado “Fan Hub”, uma espécie de seção do site com informações para os torcedores. Lá, a federação garante a promoção de eventos “inclusivos, onde comunidades locais e fãs de todo o mundo se reúnem para assistir, celebrar, sentir e compartilhar o maior evento esportivo do mundo”.
A hipocrisia é tão clara que você, leitor, já sabe onde este editorial pretende chegar. Enquanto promete inclusão, a Fifa não só permite a realização da Copa do Mundo em um país em guerra, como deixa claro que apoia Donald Trump em sua busca por reposicionamento do império estadunidense a partir da guerra, diante de uma inegável perda de terreno no campo econômico para a China.
O alinhamento da entidade máxima do futebol ao governo Trump tem nome e sobrenome: Gianni Infantino. Como bem mostrou o jornalista britânico Adam Crafton no The Athletic, braço esportivo do New York Times, em reportagem publicada no último dia 13, Infantino tem dado inúmeras demonstrações de subserviência a Trump desde o retorno desse último à Casa Branca.
Enquanto o Irã tem sua participação legítima na Copa praticamente negada, Infantino criou um prêmio anual dedicado à paz em 2025 e o entregou, de maneira inaugural, a Donald Trump. Também demonstrou seu apoio ao líder republicano ao ouvi-lo constranger jogadores da Juventus (clube italiano) em junho do ano passado, quando Trump recebeu os atletas no Salão Oval e levantou a pauta da representação de pessoas trans no esporte feminino – para total perplexidade dos presentes.
O mesmo Infantino marcou presença em um evento de criptomoedas promovido por Trump na Casa Branca, em março de 2025. Diante da total falta de aderência da agenda com o futebol, o presidente da Fifa justificou a ida ao dizer que sua entidade tinha interesse em criar uma moeda digital própria "para conquistar os cinco bilhões de torcedores ao redor do mundo".
O caso mais emblemático da aproximação entre Fifa e Trump aconteceu em maio do ano passado. Enquanto a entidade máxima do futebol promovia um congresso no Paraguai com a presença de delegações do mundo inteiro, Gianni Infantino chegava ao evento três horas atrasado, após acompanhar o presidente dos EUA em uma agenda no Oriente Médio. Pegou mal, e inúmeros representantes da Uefa (entidade ligada ao futebol europeu) deixaram a programação antes do horário.
Três coisas estão claras diante disso tudo. A primeira delas é a já conhecida convergência entre política e esporte, embora a mesma seja negada com frequência por interesseiros ou desinformados.
A segunda é o flagrante conflito de interesses no sediamento da Copa do Mundo pelos Estados Unidos, um país em guerra e com profundas divergências com inúmeras nações.
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A terceira é a dissimulação do mundo do esporte, que sanciona a participação de atletas russos em megaeventos por conta da invasão da Ucrânia (com razão), mas não aplica a mesma regra a outros países que usam as mesmas armas geopolíticas. Não só fecha os olhos para esses conflitos, mas premia os seus precursores.