A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, com seus desdobramentos pelo Oriente Médio, avança pela quarta semana com uma entre poucas certezas, em meio ao bombardeio de notícias falsas e versões conflitantes. Variáveis e incógnitas à parte, desfila pelos noticiários, aos olhos de governos, autoridades, estudiosos e quem mais acompanhe os acontecimentos, a absoluta impotência do sistema multilateral de relações internacionais para responder a mais um conflito.


São agravantes, no caso, as implicações imediatas sentidas pela economia global. Em especial, a instabilidade extrema no mercado de petróleo e derivados e, por tabela, das demais commodities exerce desde logo pressões inflacionárias em escala planetária. A trava nos índices de crescimento acende sinais de alerta para todos os extratos: desde as potências industriais aos bolsões de pobreza extrema, passando pelos países emergentes, todos refazem as contas.


No fim de semana, em sua fala durante encontro entre países latino-americanos e africanos, na Colômbia, o presidente Lula voltou a bater na tecla da impotência da ONU para fazer frente a mais uma guerra – desta vez, com potencial evidente para abarcar toda uma região do globo e, eventualmente, o conjunto do planeta. Desde seus primeiros mandatos, a política externa brasileira tem entre seus focos o esforço pela reforma das Nações Unidas, em especial de seu centro de decisões, o Conselho de Segurança.


É fato, confirmado e reforçado a cada episódio, que o modelo atual, moldado para responder à realidade do pós-Segunda Guerra Mundial, parece vencido. E não faltam razões aos que clamam pela demolição pura e simples do sistema ONU. A realidade cotidiana do mundo, porém, sugere que uma solução do tipo, sob a aparência de tratamento "radical" e "profundo" para o problema, pode dar legitimidade ao que se manifesta de mais grave no presente: a aplicação, na prática, da "lei do mais forte".


Iniciativas como a lançada e articulada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, na forma de uma "ONU" em que ele próprio – ou os EUA – detenha o comando vitalício terão pouco ou nada a aportar para o verdadeiro impasse. O chamado da realidade, do ponto de vista dos interesses humanos globais, é para quebrar o "cartel" dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, com seu poder de veto exclusivo. Não será solução oficializar o monopólio de apenas um deles sobre as decisões de interesse comum.


Na arena das relações internacionais, o desafio lançado para todas e cada uma das nações é resgatar o espírito sob o qual a ONU foi fundada, em 1945, sobre as ruínas, as cicatrizes e os milhões de cadáveres legados pelo maior conflito armado da história humana.

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Que as primeiras oito décadas de vida das Nações Unidas tenham servido, ao menos, para plantar as raízes de um mundo verdadeiramente multipolar. Onde problemas de alcance global, como a miséria, a fome e as mudanças climáticas, sejam tratados efetivamente como questões de todos. O contrário, o retorno fácil ao "cada um por si", ao "quem pode mais chora menos", é promessa de sofrimento certo para muitos, com o risco de falência segura – essa, para todos.

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