Na teoria militar clássica, a doutrina da "decapitação" pressupõe que a eliminação física dos líderes de um Estado ou regime adversário é o caminho mais curto para provocar o colapso de suas instituições, a desorientação de suas tropas e, em última instância, a rendição. No entanto, o que o mundo observa hoje no Oriente Médio, semanas após a ofensiva sem precedentes dos Estados Unidos e de Israel contra o alto comando do Irã, subverte os manuais de guerra.


A expectativa de que o assassinato do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e do núcleo duro da Defesa precipitaria a desintegração imediata da República Islâmica não se confirmou na prática. Longe de um esfacelamento interno ou da paralisia de suas forças armadas, o regime iraniano demonstra uma resiliência operacional que desafia o cálculo estratégico de Washington e Tel Aviv. Sem fazer qualquer concessão moral a uma teocracia autocrática, a análise fria e objetiva dos fatos revela um Estado que absorveu um golpe letal, reorganizou-se nas sombras e manteve sua engrenagem de poder ativa. Nem a morte do secretário de segurança Ali Larijani, um dos homens mais fortes do regime, na última terça-feira, abalou o planejamento que o Irã faz da guerra.


O emblema mais contundente dessa sobrevida institucional é o cenário no Estreito de Ormuz. Mesmo sob intenso bombardeio, Teerã continua a exercer controle sobre o gargalo por onde escoa a artéria energética global. A continuidade da mobilização militar, o disparo coordenado de mísseis e a coesão de suas linhas de defesa indicam que a Guarda Revolucionária possui um sistema de comando descentralizado e redundâncias táticas que foram subestimadas pelos serviços de inteligência rivais. O Irã prova, a um custo altíssimo, que o seu Estado é independente das figuras que o governavam.


O apelo que os EUA fizeram para que aliados se engajassem na liberação do Estreito de Ormuz foi pessimamente recebido. As outras potências, como França e Reino Unido, não se mostraram dispostas a enviar navios e armas para tentar forçar uma passagem das embarcações de petróleo que estão empacadas no Golfo Pérsico.


A leitura pragmática do teatro de operações é severa: a via da força bruta atingiu o seu limite de eficácia. A ausência de apoio do resto do mundo aponta claramente: a aposta de que mais bombardeios trarão a submissão de um regime que já demonstrou estar disposto a ir às últimas consequências é uma ilusão que custará o mergulho da economia global em uma recessão sem precedentes e, no pior dos cenários, a escalada para um conflito não convencional.


Diante do impasse de uma guerra que não produziu os resultados rápidos que seus deflagradores prometeram, a comunidade internacional precisa abandonar a letargia. O esgotamento da solução militar impõe uma guinada de rota. Por mais amarga, politicamente custosa e desgastante que pareça neste momento de ânimos acirrados, a via diplomática deve ser tentada mais uma vez.

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Buscar um cessar-fogo estruturado não é um atestado de fraqueza, mas o reconhecimento maduro de que a aniquilação mútua não serve aos interesses de nenhuma nação. Quando a resistência de um lado e o poderio do outro criam um empate técnico, a diplomacia deixa de ser uma opção idealista para se consolidar como o único instrumento prático capaz de salvar o que resta da estabilidade global.

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