Se o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha no bom desempenho da economia um forte argumento a seu favor na corrida eleitoral, com o barril do petróleo superando a casa dos US$ 100, por causa do ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã, essa posição precisará ser reanalisada. O impacto direto nas contas públicas, na taxa de juros e, principalmente, na inflação, tem tudo para se tornar munição com alto poder de dano nas mãos dos adversários – ainda que apresentem apenas rasas propostas e profundo desconhecimento do cenário. Como para eles o importante é somente manter os percentuais nas pesquisas de opinião, pode se esperar um chorrilho de falácias e frases de impacto nas redes sociais.d
Para o governo, porém, é um nó apertado. Apesar de o Brasil ser grande produtor e exportador de petróleo, importa a maior parte dos derivados que consome. Isso inclui o diesel, elemento fundamental da cadeia logística nacional. Sabe-se de antemão o que isso significa: combustível mais caro e carestia em rota de subida.
As notícias que vêm de fora são motivo de preocupação. Deixou de ser sinistrose dos analistas a hipótese de uma paralisação na produção mundial de petróleo, cujo efeito imediato será a estagnação econômica e o risco de uma disparada inflacionária em países cujas finanças estão em permanente desequilíbrio. Para se ter ideia, o Iraque, quinto maior fornecedor mundial, desacelerou a produção vertiginosamente por não ter mais onde estocar. No vizinho Kuwait, os reservatórios também estão repletos de óleo à espera de escoamento.
Na semana passada, a Aramco – maior petrolífera do planeta – derrubou a praticamente zero a atividade de uma de suas refinarias e desacelerou a produção de dois megacampos. O fechamento do Estreito de Ormuz pela marinha iraniana estrangulou o fluxo comercial dos países do golfo e levou os armadores a pagarem mais caro pelo seguro do transporte e pela utilização de rotas alternativas, e mais longas, da navegação internacional. Produtos e commodities chegarão mais caros para todos.
Antecipando-se ao colapso, ministros das finanças dos países do G7 discutiram, ontem, a liberação conjunta de petróleo de suas reservas. A medida de emergência seria coordenada pela Agência Internacional de Energia e é apoiada pelos governos de EUA, Grã-Bretanha e França. Isso indica que o conflito com o Irã não terminará tão cedo.
Para a Petrobras, trata-se de uma equação difícil de ser resolvida. O barril acima dos US$ 100 não necessariamente é um bom negócio, apesar do aumento da demanda e da redução no fluxo. Os custos da cadeia sobem generalizadamente, o que inclui a importação de derivados. Isso significa uma diminuição da capacidade da empresa em segurar os custos para o consumidor. E, como já se viu anteriormente, conter o preço do combustível artificialmente para evitar impacto inflacionário é uma medida de alto risco. Em algum momento, a barragem rompe, e o repasse na bomba vem com força cavalar.
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Assim, não é permitido ao Palácio do Planalto demora na tomada de decisão. A omissão precipita o desastre. Abre espaço para que se agregue a esse quadro crescentemente difícil duas sérias ameaças à estabilidade institucional. A primeira, de cunho econômico: pressão das grandes frotas para o aumento no preço do frete. A segunda, consequência da primeira, mas na seara eleitoral: o manjado oportunismo de setores da política ao incitar paralisações de caminhoneiros com a única finalidade de tirar dividendos nas urnas. Nesse caso, o que menos importa é o conjunto da população.