Filipe Pedroso Ribas - Coordenador pedagógico da unidade de Piraí do Sul (PR) da Rede de Colégios Santa Marcelina

As múltiplas juventudes no Brasil são complexas e marcadas por diversidade, mas também compreendidas como uma fase de transição entre a infância e a vida adulta. Elas podem ser determinadas por critérios etários, como os estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (10 a 24 anos) e pela Política Nacional de Juventude do Brasil (15 a 29 anos). No entanto, outros fatores, como os diferentes contextos sociais, culturais, econômicos e afetivos, influenciam as vivências dos jovens nestes estágios.


Marcada por diferentes experiências, a juventude é caracterizada pela heterogeneidade de perfis e personalidades, impactada por estímulos, curiosidades e descobertas relacionadas aos sonhos, à escolha profissional, universidade, vida social e religiosa. Esses elementos são fundamentais para o desenvolvimento integral das pessoas, incluindo dimensões internas como o autoconhecimento e a autonomia, aspectos essenciais para um crescimento saudável e equilibrado.


Reconhecer a importância das múltiplas juventudes no contexto escolar é essencial para fortalecer e qualificar as práticas pedagógicas. No Brasil, o percurso educacional que envolve alfabetização, desenvolvimento da leitura, interpretação e aprendizagem de diferentes áreas do conhecimento acompanha o estudante, em média, dos 4 aos 17 anos de idade. É nesse período que se consolidam as primeiras interações sociais, amizades, desafios, responsabilidades e vivências coletivas, mediadas, em grande parte, pelo ambiente escolar.


No entanto, essa realidade ainda não se concretiza plenamente para todos. É o que mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada em 2024 e divulgada pelo IBGE, em que o Brasil registrava 9,1 milhões de pessoas com 15 anos ou mais em condições de analfabetismo, o que corresponde a uma taxa de 5,3%. Embora esse índice represente um avanço em relação aos anos anteriores, de 6,7%, em 2016 e 5,4%, em 2023, ele ainda revela desafios estruturais importantes.


Entre as crianças de 6 a 14 anos, o índice de escolarização alcança 99,5%, mantendo-se praticamente estável em relação a 2016 (99,2%). Já entre jovens de 15 a 17 anos, a taxa cai para 93,4%, abaixo do previsto pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Ainda segundo o censo, cerca de 8,7 milhões de jovens entre 14 e 29 anos não haviam concluído o ensino médio em 2024, seja por evasão escolar ou por nunca terem frequentado essa etapa de ensino.


Os dados demonstram que desafios ainda persistem no campo educacional, como a permanência na escola, que é determinante para o fortalecimento das práticas pedagógicas e impacta diretamente na capacidade de acolhimento, escuta e superação das dificuldades vivenciadas pelos estudantes.


Diante desse cenário, cabe às escolas compreender e acolher as diferentes realidades que compõem as múltiplas juventudes. Esse compromisso vai além da transmissão de conteúdos disciplinares e metodológicos. Nesse cenário, a escola superou o papel de espaço restrito à aprendizagem cognitiva, assumindo, também, a responsabilidade pelo desenvolvimento humano, social e emocional dos estudantes.


Políticas e práticas educacionais mais eficazes dependem do reconhecimento dessa diversidade, reforçando a importância da formação contínua e da construção de ambientes que valorizam a escuta ativa, a convivência respeitosa e o protagonismo dos jovens. Quando o estudante se reconhece pertencente ao ambiente escolar, ele encontra mais sentido na aprendizagem e maior motivação para permanecer neste espaço e se desenvolver.


A escola é um dos pilares fundamentais no reconhecimento das múltiplas juventudes. O papel desta instituição vai além do campo acadêmico, consolidando-se como parte de apoio que envolve a família e a comunidade. A participação ativa dos pais no cotidiano escolar é essencial para promover diálogo, acompanhamento e incentivo aos jovens, especialmente ao longo do ensino fundamental e médio.


Além disso, o acesso ao ensino superior está diretamente relacionado à construção sólida de conhecimentos nas etapas anteriores da escolarização. Nesse percurso, o papel acolhedor das instituições de ensino amplia a compreensão sobre as necessidades e potencialidades de cada estudante, fortalecendo tanto sua trajetória acadêmica como a pessoal.

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Reconhecer as múltiplas juventudes implica corresponder às necessidades reais dos jovens e considerar a pluralidade de suas trajetórias e formas de estar no mundo. Considerando que os pontos de partida dessas juventudes são distintos, é fundamental que a educação se adapte para acolher, orientar e fortalecer cada jovem em sua singularidade, promovendo uma formação verdadeiramente humana, integral e transformadora.

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