Durante os sucessivos ciclos de revolução industrial, a promessa do avanço tecnológico sempre veio acompanhada de uma premissa: as máquinas assumiriam o peso do trabalho braçal e repetitivo, liberando a humanidade para o exercício de suas capacidades mais nobres: o pensamento, a filosofia, a arte e a inovação.
Por isso, não deixa de ser irônico que o avanço da IA sobre o trabalho se dê justamente nas áreas mais envolvidas com as artes, a criatividade e a cognição. Setores que até ontem se julgavam blindados pela barreira da "subjetividade humana" – como o cinema, a produção audiovisual, o design e a programação de softwares – estão sendo engolidos em uma velocidade atordoante. Estúdios inteiros de animação, roteiristas, dubladores e desenvolvedores seniores veem décadas de especialização serem replicadas, e muitas vezes superadas, por algoritmos autônomos que não dormem, não cobram salários e geram resultados complexos e satisfatórios em frações de segundo.
O drama do mundo pós-IA não reside, porém, apenas na perda imediata de postos de trabalho, mas na impossibilidade matemática de realocação dessa mão de obra. Nas revoluções anteriores, o trabalhador que perdia o emprego no campo migrava para a fábrica, e o operário substituído pelo robô encontrava abrigo no setor de serviços. Agora, a engrenagem é diferente.
Pela primeira vez na história moderna, a inovação tecnológica corre o risco de destruir muito mais empregos do que é capaz de criar. Para onde migrarão os milhões de profissionais que serão substituídos pela IA se a própria demanda por trabalho intelectual está encolhendo? A dura matemática do mundo pós-IA indica que não haverá transição de carreiras simplesmente porque existirão, em termos absolutos, muito menos empregos disponíveis.
O que se projeta no horizonte de curto prazo é a concretização do cenário alertado pelo historiador Yuval Harari, autor do livro “Sapiens”: o surgimento de uma imensa “classe inútil”, um contingente de bilhões de pessoas que, diferentemente do proletariado explorado do século 19, sequer será necessário para girar a roda da economia. Na definição de Harari, são pessoas que não serão apenas desempregadas, mas que não serão empregáveis. Trata-se de uma massa de cidadãos que, a despeito de sua formação acadêmica ou experiência, não conseguirá se realocar no mercado tradicional.
Esse vácuo produtivo não é apenas uma tragédia individual, mas uma bomba-relógio para o próprio sistema capitalista, que depende do emprego para gerar renda, e da renda para sustentar o consumo. Mais do que isso: o trabalho, nas sociedades modernas, é o alicerce da dignidade e da identidade social. Uma sociedade estruturada em torno de uma maioria ociosa por falta de oportunidades é o terreno perfeito para a desestabilização democrática e para a ruptura institucional.
Para países em desenvolvimento, como o Brasil, o cenário é ainda mais dramático. Na condição de coadjuvante dessa revolução, corremos o risco de absorver todo o choque do desemprego estrutural sem termos a capacidade jurisdicional de tributar ou controlar as big techs estrangeiras que concentrarão essa nova e monumental riqueza.
É imperativo, portanto, que os formuladores de políticas públicas, o empresariado e a sociedade civil abandonem o estado de deslumbramento tecnológico e encarem a gestão dessa crise com a gravidade que ela exige. Os debates sobre taxação de algoritmos, redução drástica de jornadas (para distribuir melhor o trabalho restante) e a implementação de uma renda básica universal precisam sair dos simpósios acadêmicos e entrar, para ontem e à sério, nas pautas legislativas.
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O mundo pós-IA já não é uma ficção especulativa. É a realidade batendo à porta dos estúdios, das agências e dos polos de tecnologia. Priorizar a construção de uma rede de proteção social para os que serão inevitavelmente deixados para trás por essa revolução não é apenas uma questão de empatia ou justiça social; é o único caminho para evitar que o maior feito tecnológico da humanidade se transforme em seu maior desastre humanitário.