Recorrendo ao conhecido discurso de ataque à ciência, Donald Trump revogou, na última quinta-feira, a base legal de medidas que visam proteger a saúde da população dos efeitos da crise climática, criada na gestão de Barack Obama. Na percepção do atual chefe da Casa Branca, a “determinação não tinha nenhuma base factual” e é “odiada” pelos estadunidenses pelos custos gerados – o republicano estima uma economia de US$ 1,3 trilhão (R$ 6,7 trilhões), chancelada pelo chefe da Agência de Proteção Ambiental (EPA), Lee Zeldin. “Tenho orgulho de apresentar a maior ação de desregulamentação da história dos EUA em nome dos contribuintes e consumidores americanos”, afirmou o administrador.

A ciência tratou de não deixar a dupla falando sozinha. No mesmo dia em que a chamada constatação de perigo caiu por terra, uma pesquisa divulgada na renomada revista científica Nature Communications alertou que a fragmentação do mundo em relação ao enfrentamento da crise climática leva a uma maior desigualdade em saúde, afetando sobretudo as nações mais pobres, que têm menos controle sobre a qualidade do ar respirado.

Enquanto Trump prometia, em um segundo momento da revogação, derrubar as normas que regulamentam as emissões de gases de efeito estufa de veículos, cientistas das universidades de Cardiff, no Reino Unido, e do Colorado em Boulder, nos EUA, atestavam que melhorar a qualidade do ar global pode salvar até 1,32 milhão de vidas por ano até 2040. “Estratégias climáticas mais inclusivas exigem que se leve em conta explicitamente a evolução das desigualdades transfronteiriças”, enfatizou, em nota, Daven Henze, coautor do estudo e professor da universidade estadunidense.

Prega a sabedoria popular que "qualquer semelhança é mera coincidência". Mas essa sincronia nas declarações de Trump e dos estudiosos do clima não tem nada de insignificante. O que o chefe da Casa Branca anuncia agora com orgulho não surpreende. Vinte dias antes, ele havia declarado que os Estados Unidos encerravam sua participação na Organização Mundial da Saúde (OMS), cumprindo ordem executiva assinada poucas horas depois de ser empossado, em janeiro de 2024. É imprescindível, porém, que suas decisões não reverberem sem contraponto qualificado e responsável. Ainda que haja uma perigosa sensação de que o enfrentamento a grandes dilemas da atualidade não transcende ao campo declaratório, o silêncio enfraquece instituições consolidadas – incluindo a ciência – favorecendo rupturas.

O texto assinado por Daven Henze e colegas propõe a adoção de uma política climática “holística”, que “avalie o grau de dependência de uma nação em relação à redução de emissões de outros países”, levando a esforços globais que contribuam para relações mais equânimes. Os cientistas concentraram-se no impacto das partículas finas (PM2,5) no corpo humano – justamente os poluentes emitidos por veículos e indústrias que queimam combustíveis fósseis –, mas o desafio é maior.

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A gestão da saúde pública global é um dos pontos nevrálgicos da atual crise de multilateralismo. Ajustar mercados – buscando novos parceiros ou reorganizando dinâmicas internas – pode ser menos desafiante do que fechar as fronteiras para vírus ou controlar o subir dos termômetros. A pandemia da COVID-19 e os sucessivos registros de calor recorde – incluindo a onda que matou mais de 60 mil moradores, em 2022, na Europa – sustentam a tese de que o mundo não enfrenta um mal-estar passageiro.

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