Aleluia Heringer Lisboa

Doutora em Educação (UFMG)


Há uma expectativa social e constitucional de que, prioritariamente, a formação humana ampla e o preparo para o exercício da cidadania se deem por meio das instituições família e escola. Ainda assim, a cultura e a sociedade onde a criança e o jovem estão inseridos, os ambientes que frequentam, o território que os abriga e outras inúmeras variáveis influem nos sentidos dessa educação.

Não podemos falar de certezas. Se fizermos tudo certo, ainda assim pode dar tudo errado – o que não nos libera do compromisso educativo. Feita essa marcação, que implica, mesmo que de forma difusa, a tudo e a todos, e sem desconsiderar a responsabilidade da família, meu recorte, neste momento, é a parcela, mesmo que ínfima, que cabe à escola.

Sendo uma construção social, a escola nem sempre existiu da forma como a conhecemos; ainda assim, em diferentes modelos, sempre teve a função de comunicar a herança da experiência humana – seja dentro de casa, no meio da comunidade ou em espaços específicos para essa finalidade. Quando a criança nasce, serão os pais, avós, o irmão mais velho ou uma escola que se encarregará de sua condução e inserção na cultura. É nesse movimento e contorno que se vai ensinando o que significa viver em sociedade: como ocupar espaços públicos e coletivos; o dever do reconhecimento dos direitos de existência do outro humano e, mais recentemente, também do não humano.

Quando o filósofo Theodor Adorno (1903-1969) nos brindou com a contundente frase de que “a exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação”, trazia à tona que qualquer empreendimento ou debate educativo perderia o sentido se não fosse para evitar a violência dirigida contra os corpos e as mentes das pessoas consideradas indesejáveis ou irrelevantes. Escolas, para além do ensino das linguagens, da matemática e das ciências em geral, não podem se descuidar do papel primordial de dar o contorno civilizatório e de se colocarem a serviço da humanização.

A instituição escolar, sempre cantada em verso e prosa – principalmente quando é preciso falar das soluções para todas as mazelas da sociedade –, há algum tempo, foi colocada sob suspeita. Esse movimento de desvalorização não é isolado, mas está em linha com o enfraquecimento de uma ordem mundial baseada nos valores comuns expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, como a paz, a democracia e os direitos humanos.

Se esse é o contexto, neste momento em que se inicia um novo ano letivo, uma pergunta é essencial: a que escola servimos? Pensando na criança que chega e em toda a exposição a aulas, projetos ou conversas que vão acontecer ao longo de duzentos dias letivos, o que colocaremos nesse caminho para que, ao chegar aos 17, 18 anos, possamos dizer que o empreendimento educativo proporcionou o pleno desenvolvimento e a expansão da pessoa? De que forma contribuímos, dentro daquilo que está ao nosso alcance, para que esse sujeito cuide de si, do outro, dos espaços públicos, do planeta e das outras espécies que compartilham conosco esta mesma jornada chamada vida?

Ser escola em um contexto de emergência climática e de tantas mudanças faz urgente “currículos que reorientem o lugar dos humanos no mundo”. De igual modo, é esperado que a escola oriente os estudantes para a vida social com Direitos Humanos e sem as opressões que rebaixam a condição humana (racismo, homofobia, machismo, feminicídio, entre outras).

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Esse seria o ponto de partida coletivo a sustentar o nosso contrato social. O plano de voo que deveria guiar todos os projetos pensados a partir da escola, ou fora dela. O mundo anda tão complicado, que aqueles e aquelas que estão na escola precisam se levantar, desembaçar os olhos e retomar esse lugar de reorientação dos humanos. Para isso, precisamos contar histórias em que nós mesmos acreditamos, histórias do encantamento e da coragem para ser e fazer tudo isso.

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