Ao lançar o olhar sobre a sociedade brasileira reconhece-se o inquietante contraste entre as suas muitas possibilidades e graves lacunas, apontando para a necessidade de novos marcos civilizatórios, alicerçados em tradições e valores que contribuam para a promoção do desenvolvimento integral. Trata-se de meta distante, pois não são poucos os obstáculos a serem superados. Subculturas medram por todo lado e comprometem o tecido social, consolidando uma infindável lista de situações que poderiam ser diferentes, com mais justiça, igualdade e bem-estar, livre de exageros, desperdícios ou luxos. Essas situações são facilmente reconhecidas pelo povo que sofre na pele as consequências dos descasos, das exclusões e das desigualdades. É necessário apostar em dinâmicas que promovam um novo ethos cultural, para livrar a sociedade brasileira de suas terríveis contradições – o país é “celeiro do mundo”, mas a fome é problema que constantemente ameaça significativa parcela de sua população; tem natureza pródiga, mas suas riquezas beneficiam apenas uma minoria, reúne muitos recursos, e convive com infraestrutura medíocre.
Muitas lacunas perpassam vários âmbitos – educação, saúde, cultura e bem-estar social – e a política poderia ser caminho para solucionar grande parte dos problemas, mas padece de graves contaminações. Nesse cenário, torna-se ainda mais urgente investir em uma aposta antiga, mas que sempre permanece nova: o caminho da fraternidade. Importa cuidar da aspiração que está na raiz do coração de cada homem e mulher: o anseio por uma vida plena, no horizonte da fraternidade. O ponto de partida é simples, mas altamente transformador. É o anseio inato do ser humano de estabelecer comunhão com seu semelhante, antídoto para a inimizade e a predatória concorrência. Deve-se promover sempre mais esse anseio ao reconhecimento de que todos são irmãos e irmãs, sempre prontos para um abraço cordial, solidário e de reconciliação. O grande investimento é, pois, no desenvolvimento da consciência de que cada pessoa é um verdadeiro irmão, verdadeira irmã. Eis a base para uma sociedade justa e garantia da conquista de uma paz sólida, duradoura.
Todos os cidadãos devem estar mobilizados para investir no caminho da fraternidade, reconhecendo que a família é a primeira escola educativa para uma vida mais fraterna. A fraternidade tem força para mudar dinamismos e as direções da história, promovendo uma semeadura do ethos do cuidado – irmãos e irmãs que se acolhem nutrindo o gosto pela construção de uma comunidade onde todos são acolhidos e cuidam uns dos outros. A fraternidade, quando adotada como princípio existencial, tem força para vencer o que fere a dignidade humana. O distanciamento dessa força explica as inúmeras situações de desigualdade, de pobreza e injustiça. É preciso deixar ecoar, no coração, a pergunta feita por Deus a Caim: “Onde está teu irmão?” A resposta não se esgota no patriotismo ou nas afinidades peculiares de torcedores de um time esportivo. Importa saber que todos têm um mesmo pai e todos são irmãos. Inadmissível, e primeiro passo rumo ao fracasso, é responder à interrogação de Deus com a insolência perversa de Caim: “Não sei dele. Sou porventura guarda do meu irmão?”.
Caim desrespeita a vocação original do ser humano de viver em fraternidade. E sem o adequado investimento na fraternidade são ampliadas as portas da indiferença, do egoísmo, do ódio. Esse investimento encontra fundamentos na paternidade de Deus e gera princípios ético-morais sempre favoráveis ao bem comum e ao desenvolvimento integral. A fraternidade dá à luz o mais relevante sentido de solidariedade, um degrau indispensável e sempre atual. É caminho para vencer a pobreza que dizima pessoas e dilacera o mundo. O princípio da fraternidade permite reconhecer a relevância do desapego, da adoção de estilos de vida sóbrios e essências, um contraponto à ganância que cega e confunde. A fraternidade impulsiona a partilha, é compromisso inegociável para quem quer seguir Jesus Cristo. Esse princípio deve nortear os mais diversos campos sociais, especialmente a economia, suas forças hegemônicas que causam impactos variados e, atualmente, desencadeiam crises pelo mundo.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Constata-se que a degradação das relações interpessoais impeliu as pessoas a buscarem, ilusoriamente, a felicidade e a segurança no consumo e no lucro desmedido. A Doutrina Social da Igreja faz admoestações preciosas sobre essa triste situação. A fraternidade tem força para superar a degradação das relações, para acabar com guerras e reestabelecer o diálogo, o perdão e a reconciliação. Assim, auxiliar na reconstrução da justiça e fazer a sociedade avançar. Bem expressou o papa Francisco, em 2014, na sua primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz: fraternidade gera paz social, ao criar equilíbrio entre liberdade e justiça, entre responsabilidade pessoal e solidariedade, entre bem dos indivíduos e bem comum, contando, sobretudo, com uma comunidade política que age de forma transparente e responsável para favorecer o bem de todos. Um autêntico espírito de fraternidade gesta novos hábitos e dinâmicas, renovando a cultura. Conclui o papa Francisco: é necessário que a fraternidade seja descoberta, amada, experimentada, anunciada e testemunhada, certos de que só o amor dado por Deus é que permite acolher e viver plenamente a fraternidade.