DOM WALMOR OLIVEIRA DE AZEVEDO

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


As dinâmicas culturais podem ser vetor de impulso, ou de retrocessos, na busca pelo desenvolvimento integral da sociedade, compromisso com a vida de todos. O risco maior é quando subculturas assumem o comando de processos decisivos à promoção do desenvolvimento integral. Subculturas são aquelas constituídas por processos que buscam o atendimento de interesses particulares, em prejuízo aos anseios da sociedade. Elas promovem a relativização do bem comum, fazendo com que os pobres e vulneráveis paguem preço ainda mais alto. Subculturas têm força para impedir conquistas importantes para a vida de todos. Um mal que se torna evidente quando os debates políticos, ao invés de buscar discernir a melhor escolha para o bem de todos, se reduzem a disputas ideológicas, fecundadas por embates que formatam a polarização, promovendo retrocessos e estagnações.

O mundo da política, distanciado da nobreza do diálogo e da priorização do bem comum, se torna lugar de hostilidades, orientado aos interesses hegemônicos do lucro, longe de buscar contemplar o bem-estar de todos. Aqueles que estão no exercício do poder envolvem-se, facilmente, em um bate-boca estéril, colocando em evidência quem, de modo mais figadal, faz ataques. Esse cenário contribui para constituir um vício terrível: a mobilização da linguagem para construir uma autoimagem a partir da atitude iconoclasta de destruir a imagem do semelhante. A linguagem deixa, assim, de ser mobilizada para ajudar na construção de discernimentos essenciais ao desenvolvimento. Torna-se instrumento no contexto de disputas que consomem muita energia. Essa subcultura alicerçada na busca pela destruição de quem pensa diferente é alimentada pelo desejo de ser sempre maior que o semelhante. Um desejo que cega o ser humano para as reais necessidades de seu contexto social.

Quando se importa somente com o que é do próprio interesse, vira-se as costas para o bem comum de todos. E as sociedades mais desenvolvidas mundo afora partilham uma característica: seus cidadãos não se interessam apenas pelo próprio bem, mas incluem no próprio horizonte o bem-estar de cada um. Não basta que uma pessoa ou pequeno grupo tenha moradias dignas, com muito luxo, enquanto tantos outros sofrem em lugares inadequados, insalubres. Não são suficientes medidas que melhoram a mobilidade urbana de alguns privilegiados, insensivelmente tratando os anseios dos mais pobres. Igualmente grave é deixar-se aprisionar no propósito da autopromoção, buscando trunfos em disputas eleitorais, ou mesmo reconhecimento social. A cegueira em relação à importância do semelhante gera um distanciamento da compreensão sobre a importância de se saber administrar as diferenças, reconhecendo que todas as pessoas partilham a mesma dignidade. Essa compreensão promove equilíbrio social.

Sociedades mais desenvolvidas, obviamente, também são cenário de embate entre suas diferenças, mas seguem parâmetros nos quais o bem comum é prioridade. Sem esses parâmetros, os esforços se concentram nos embates, distanciando as ações governamentais do bem de todos. São desperdiçados recursos a partir das dinâmicas da corrupção e tantas outras que ameaçam o bem comum. O desarvorado desejo de possuir sempre mais, acumulando bens ilimitadamente, precipita pessoas, segmentos da sociedade e instituições no abismo da imoralidade e da falta de ética. As consequências são sentidas no dia a dia, com inadequações no tratamento da infraestrutura urbana, viária e de outras prioridades quando se busca o equilíbrio social. A vida simples, vivida com qualidade, é substituída pelo esbanjamento, fecundado por vaidades. A sede de possuir sempre mais alimenta a crescente violência e acentua diferentes tipos de adoecimento.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Importante lembrar que o mundo contemporâneo enfrenta uma epidemia de depressão, enfermidade que ameaça a vida de muitas pessoas. Padece também com a depressão social, consequência do crescente abismo que divide ricos e pobres. Para vencer esses males, deve-se também buscar construir uma cultura da paz, a partir de relações sociais mais igualitárias e do enfrentamento de subculturas que minam a unidade e a comunhão na vivência da fé, que subtraem da política o seu sentido nobre, que produzem miopias. Subculturas que estagnam governantes, reduzem o patriotismo ao mundo esportivo, impedem investimentos em patrimônios culturais duradouros que ancoram identidades, memórias e valores. A lista de subculturas é enorme. Urge-se, permanentemente, um deliberado e vigoroso processo de tomada de consciência, adoção de novas dinâmicas, correção de procedimentos para não enjaular uma sociedade no atraso, desperdiçando seus muitos recursos. O combate aos entraves das subculturas tem, mundo afora, referências inspiradoras, que podem ajudar a promover o desenvolvimento integral. Sejam superados esses entraves, por uma sociedade ancorada na justiça e na solidariedade.

compartilhe