LEÔNIDAS OLIVEIRA
Gestor público nas áreas de cultura e turismo

Viver hoje um tempo em São Paulo, trabalhando e tocando projetos, tem me permitido olhar para Minas e para BH com a nitidez que o deslocamento oferece. Afastar-se, às vezes, é método. Observar a cidade tendo o Carnaval como centro ajuda a compreender uma mudança profunda na forma como o espaço público passou a ser vivido.

Por muitas décadas, BH tratou a rua com cautela. No carnaval, isso se traduzia num hábito consolidado: a cidade se esvaziava e buscava outros destinos. A rua cheia, o encontro, a permanência – tudo isso precisou ser reaprendido.

Muito antes de 2009, movimentos de ocupação do espaço público já existiam em BH, em diálogo com experiências internacionais que recolocavam praças e avenidas no centro da vida política e cultural em diversas cidades do mundo. Em BH, esse processo se intensifica a partir de 2009, quando debates urbanos, ações culturais e experiências de ocupação do espaço público – como exemplo, a Praia da Estação – passam a ganhar mais visibilidade e densidade, recolocando a rua no centro da vida coletiva. Era um tempo em que a presença das pessoas voltava a ser entendida como valor.

O carnaval de BH, no entanto, tem marcos próprios e bem definidos. Os blocos já existiam antes de qualquer institucionalização. O pré-carnaval já acontecia. Muitos desfiles sempre fizeram parte da vida dos bairros, especialmente nas regionais. Blocos que se tornariam referências – como Santo Bando, Afoxé Ilê Odara e Leão da Lagoinha – nasceram em décadas anteriores, construindo, pouco a pouco, uma nova relação da cidade com a festa. A partir de 2009, alguns desses cortejos passam a ganhar maior visibilidade também no Centro.

O crescimento deixou de caber no improviso. A crise do Santo Bando no pré-carnaval de 2011 expôs limites operacionais e acelerou um debate inevitável. Depois de longo diálogo com diferentes setores, a cidade compreendeu que não bastava reagir: era preciso organizar.

Assim, em 2012, a PBH assume, pela primeira vez, a responsabilidade de estruturar o carnaval de rua. Vinte e sete blocos se cadastraram. O objetivo não era criar o carnaval – ele já existia –, mas demonstrar sua viabilidade como política pública urbana, com pactos mínimos, orientação, serviços, diálogo e cuidado. O resultado foi imediato: mostrou que era possível oferecer uma festa organizada, plural e acolhedora, capaz de atrair uma demanda já cansada dos destinos tradicionais. BH começou a se afirmar como cidade de permanência. A rua, quando recebe método, não vira caos: vira encontro.

Em 2013, essa confiança urbana ganha fôlego e visibilidade: consolida-se a etapa de profissionalização da gestão integrada entre cultura e turismo, os freios de mão são retirados, o carnaval passa a ser tratado como ecossistema, e a Virada Cultural confirma, com 24 horas contínuas de ocupação do Centro, que a cidade já era capaz de acolher grandes fluxos sem recorrer à gramática do medo. É nesse ciclo que entro diretamente, contribuindo para ampliar escala sem perder diversidade; organizar sem domesticar; proteger a espontaneidade sem abdicar da responsabilidade pública. Como observa Mauro Werkema, o carnaval de BH se consolida quando deixa de ser apenas evento e se afirma como experiência coletiva de convivência urbana, redefinindo o sentido da rua e da cidade.

Esse crescimento não se fez contra o carnaval tradicional. Ao contrário, somou-se a uma história longa e popular já existente. Escolas de samba e blocos caricatos, patrimônio cultural imaterial da capital, sustentaram por décadas a memória comunitária da festa. Tradição e contemporaneidade passaram a conviver.

Há ainda uma marca incontornável: a diversidade musical. O carnaval de BH tornou-se síntese das culturas da cidade – baterias e bandas, fanfarras, matrizes afro-mineiras, repertórios populares e novas cenas urbanas. Um carnaval policêntrico, compatível com a forma urbana de BH, que inventou sua própria escala.

No pós-pandemia, outra dimensão ficou evidente: o carnaval é trabalho, cadeia produtiva, economia da criatividade e da cultura. Bloco não vive só de desejo. Vive de ensaio, instrumento, transporte, equipe, comunicação. A festa se afirma como produção cultural estruturada, com valor simbólico e geração real de renda.

É nesse contexto que se fecha uma equação institucional decisiva. Em 2022, o prefeito Fuad Noman me liga, consciente de que BH havia chegado a uma escala em que a cooperação entre município e estado não era opção, mas responsabilidade. No final de 2024, encontro-me com ele em sua casa, pensando o carnaval de 2025 com serenidade e visão de futuro. Foi uma das últimas reuniões que realizou.

A partir daí, a parceria entre prefeitura e governo de Minas ganha método. O estado passa a somar aquilo que lhe é próprio – segurança, saúde, operação e fomento – como ocorre quando a gestão pública amadurece e compreende o carnaval como ecossistema.

Com essa maturidade, o carnaval de BH passa também a se projetar para além de Minas. Um marco simbólico desse movimento foi a campanha no metrô do Rio de Janeiro, em 2024, inserindo BH no imaginário nacional do carnaval. A partir daí, campanhas culturais e turísticas passaram a circular em feiras, eventos e plataformas nacionais e internacionais, posicionando BH e Minas num circuito mais amplo de destinos culturais contemporâneos.

E é preciso dizer com clareza: o grande protagonista do carnaval de BH não é o poder público.São as pessoas – dos blocos, das escolas, da produção cultural, do interior e da capital. Outro aprendizado simbólico foi superar a lógica do cercamento. BH sempre flertou com a cidade do medo. O carnaval ensinou outra coisa: gente não cabe em curral.

Chegando a 2026, a comparação fala por si. Se em 2012 eram 27 blocos cadastrados, hoje são 612, segundo a Belotur. A escala mudou, mas o princípio permanece: a rua como encontro. A cidade sente isso antes mesmo do primeiro tambor, com ocupação hoteleira recorde até aqui, sinal claro de confiança e decisão antecipada de vir, ficar e viver a festa.

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No fim, ao observar Minas e sua capital pelo centro do carnaval, fica a certeza de que BH e Minas Gerais construíram uma das experiências culturais mais fortes do país e, cada vez mais, uma referência entre as melhores do Brasil e do mundo.

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