Os banhos de praia e de rio que têm mitigado os efeitos do calor ao longo do verão podem não ser tão apropriados quanto parecem. Mergulhar em águas limpas no Brasil é cada vez mais uma experiência listada entre as excepcionalidades. Cenário resultante da inabilidade histórica na gestão do esgotamento sanitário e da falta de respostas eficazes a ameaças ambientais mais recentes – entre elas, a dispersão dos microplásticos.
Quanto às praias, o raio X é dramático. Apenas três em cada 10 são próprias para banho neste verão, conforme balanço divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo recentemente. Trata-se do pior índice da década, com o número de praias com condições de balneabilidade consideradas péssimas e ruins superando o das aprovadas – 279 contra 253, respectivamente. O levantamento considerou coletas feitas em 14 estados entre novembro de 2024 e outubro de 2025. Amapá, Piauí e Pará ficaram de fora porque sequer medem a qualidade de suas águas.
O critério avaliado é a densidade de bactérias fecais. Não surpreende, portanto, que tenha se chegado à taxa histórica mínima de balneabilidade, já que não há evolução expressiva em indicadores de saneamento em tempo recente. Segundo levantamento do Instituto Trata Brasil, após cinco anos de instalação do Marco Legal do Saneamento Básico, o acesso aos serviços de coleta de esgoto no país aumentou apenas dois pontos percentuais – de 53,2% para 55,2%. O tratamento de esgoto subiu um pouco mais – 46,3% para 51,8% –, mas segue deletério. Praticamente metade do esgoto produzido é despejado na natureza – leia-se rios e mares – sem qualquer remoção de contaminantes.
O marco legal prevê que 90% da população brasileira seja atendida com esgotamento sanitário até 2033, entre outras metas. Para isso, facilitou a privatização das empresas estatais que prestam esse tipo de serviço, o que tem se mostrado insuficiente. “O saneamento precisa ser visto como um ativo político, como algo realmente que transforma a vida das pessoas, que é transversal, que traz saúde para a população, que impacta na escolaridade média das crianças, na renda média dos adultos”, indicou Luana Pretto, presidente executiva do instituto, à época da divulgação do balanço, em agosto.
Ainda que mais recentes, os monitoramentos da presença de microplásticos nas águas corroboram com a gravidade do panorama. Estudo liderado pelo Instituto Federal Goiano (IF Goiano) com 1.024 praias brasileiras – o mais extenso conduzido até o momento no país – revela que 70% estão poluídas com esses fragmentos de até cinco milímetros. Estudo em andamento na Universidade Federal do Pará estima que são lançados anualmente nos rios amazônicos 182 mil toneladas de plástico, o que faz com que a bacia hidrográfica esteja entre as mais poluídas no mundo.
Não é exagero afirmar que a prática se repete pelo resto do país. Pesquisa divulgada, em fevereiro último, na revista Marine Pollution Bulletin alertou que o Rio Bugres, entre Santos e São Vicente, no litoral de São Paulo, tem a concentração de resíduos plásticos “nunca vista antes na costa da América Latina”. Projeto recente de mestrado na PUC de Goiás “reforça a urgência de uma gestão eficaz dos resíduos plásticos na Bacia do Rio Meia Ponte, manancial do bioma Cerrado, no alto curso da Bacia do Rio Paraná.
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Tais cenários não condizem com o esperado de um país que tem pretensões de ser referência em preservação ambiental. Reconhecido internacionalmente pela farta reserva hídrica e pela grande faixa litorânea, o Brasil peca na governança das águas. Elencou, inclusive, o tema como uma das prioridades da COP30 para mostrar ao mundo “o compromisso histórico do Brasil com essa pauta”, nas palavras do ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes. É preciso fazer mais.