A crise diplomática em torno da Groenlândia, que até a semana passada poderia ser interpretada por observadores otimistas como uma tática agressiva de negociação comercial, assumiu contornos de ruptura institucional irreversível nos últimos dias. A exposição das mensagens enviadas pelo presidente francês, Emmanuel Macron, ao mandatário norte-americano, Donald Trump, escancarou as tensões transatlânticas. Afinal, Trump não se deu ao trabalho de responder. Resolveu colocar na sua rede social, nesta terça-feira, o apelo de Macron pelo diálogo sobre a soberania do território europeu.
Ao abrir para o mundo a tentativa de Macron, Trump ainda retirou as cortinas dos bastidores do poder atual. Não existem conversas organizadas, tratamentos engenhosos ou nada do tipo. Apenas ausência de diálogo.
Diante da situação, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, alertou que “o pior está por vir”. Não é fatalismo, e sim um diagnóstico realista de quem compreendeu a natureza da ameaça. Ao reiterar ser “impossível negociar valores fundamentais” com Washington, Frederiksen traçou uma linha vermelha que a Europa, até então, hesitava em desenhar. A soberania, o direito internacional e a lealdade entre aliados não são mercadorias sujeitas à flutuação cambial ou a tarifas punitivas.
Nesse tabuleiro de xadrez cada vez mais perigoso, a contraofensiva de Copenhague carrega uma ironia trágica e uma astúcia estratégica. A proposta dinamarquesa de instalar uma presença permanente de tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Ártico expõe o paradoxo existencial da aliança: o pedido de socorro militar visa proteger um membro da Otan não de uma ameaça russa ou chinesa, mas das ambições do próprio país que lidera o bloco.
Se tal medida for adiante, a Otan se verá diante de um dilema. Tropas europeias seriam mobilizadas para garantir que a bandeira de um aliado não seja cravada por força de coerção econômica do outro – como o perfil oficial da Casa Branca sugeriu em publicação recente. É o cenário de pesadelo que nenhum estrategista da Guerra Fria ousaria prever.
A exposição da mensagem privada enviada por Macron a Trump serve, portanto, como o catalisador de uma desconfiança que vinha sendo represada. Se a Casa Branca está disposta a atropelar aliados históricos em nome de uma visão transacional da geopolítica, o conceito de “Ocidente” como uma comunidade de valores democráticos corre o risco de dissolução.
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O momento exige frieza e cálculos das chancelarias europeias – e do Itamaraty, por consequência. A disputa pela Groenlândia deixou de ser uma questão bilateral para se tornar o teste definitivo da resiliência das instituições multilaterais. Como bem alertou a premiê dinamarquesa, o pior cenário já não é uma hipótese distante. É imperativo que a prudência prevaleça sobre a ambição, para evitarmos um mundo onde a força bruta volte a ditar as regras.