Várias são as doenças irreversíveis que acometem a visão. O glaucoma é uma delas, já que é a maior causa evitável de cegueira no mundo e a primeira causa de cegueira irreversível no Brasil e no mundo, ou seja, depois que o paciente perde a visão, essa será sua condição para o resto da vida, ao contrário de muitos que pensam que um transplante de córnea, por exemplo, solucionaria a questão. E o que ocorre, posteriormente, é o surgimento de outras situações. Além do maior risco de acidentes e do aumento da dependência, é comum a elevação de quadros como ansiedade (13% a 30% dos pacientes) e depressão (11% a 25%), entre outras comorbidades, atesta a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG).
Embora ações como a Política Nacional da Assistência Farmacêutica (PNAF), do Ministério da Saúde, venham se expandindo, ainda há muito o que se considerar. Em 20 anos do programa, incluindo medicamentos de uso oftalmológico, o montante de recursos aplicados passou de R$ 1,4 bilhão para R$ 21,9 bilhões em 2024. Em outra frente, o governo federal investirá R$ 2,4 bilhões este ano no Programa Mais Acesso a Especialistas, o que também inclui a saúde dos olhos. A intenção é reduzir o tempo de espera para consultas, exames e resultados.
Estamos falando de uma doença silenciosa, como tantas outras, provocando sintomas apenas nos estágios mais avançados, o que significa que o indivíduo só corre para o oftalmologista quando percebe que não está mais enxergando. Outro problema é que nem todas as pessoas com pressão intraocular elevada têm glaucoma e algumas com glaucoma têm pressão intraocular normal, por isso o suporte precisa ser especializado.
E o problema é bem mais embaixo, é na base, na estrutura. No planeta, 78 milhões de indivíduos têm glaucoma e, até 2040, a previsão é de 111,8 milhões de casos no mundo, segundo a SBG. Se nos países desenvolvidos, 50% dos casos não são detectados atualmente, o que dirá no Brasil. As estimativas são assustadoras. Pelo menos 900 mil brasileiros já apresentam a doença e sabem que têm, de um total estimado de 2 milhões de pessoas.
A falta de informação ou apoio no sentido de incluir a ida ao oftalmologista nos checapes leva os especialistas a fazerem alertas nas campanhas de conscientização, mas com sucesso questionável. Além disso, se o paciente que utiliza os serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) não é diagnosticado, o que adianta cerca de 42 mil unidades de Saúde da Família espalhadas pelo país estarem disponíveis para atender a população?
Atualmente, o SUS oferece 19 procedimentos para acompanhamento, avaliação e tratamento do glaucoma. Nas maternidades, o teste do olhinho é obrigatório e cumpre seu papel. O exame é simples, não dói e detecta alterações no eixo visual, mas, ao longo da vida – da criança à fase adulta –, as pessoas têm pouca ou nenhuma iniciativa para buscar acompanhamento especializado.
Ainda que irreversível, se diagnosticada no início, é possível estagnar a doença. Mas, sem dúvida, é um trabalho de equipe, porque a cegueira ou a possibilidade de perda da visão fragiliza, apavora. Daí a importância de terapeutas, cuidadores, familiares que estejam aptos a ajudar esse paciente que, provavelmente, terá desafios a todo momento. Estamos entrando no Maio Verde, mês de conscientização e combate ao glaucoma e, com certeza, mais estudos virão. Mas a cura ainda é uma realidade distante. Poder público, universidades e instituições de saúde estão diante de um desafio gigante.