É ponto pacífico na ciência o entendimento de Charles Darwin de que o meio ambiente atua como um selecionador das características evolutivas, ou seja, possibilita aos seres mais aptos sobreviver em determinadas condições. Os organismos menos adaptados apresentam menor chance de sobrevivência e, consequentemente, de reprodução.


Os seres humanos distinguem-se por terem maior e mais flexível capacidade de adaptação. Os avanços tecnológicos e as novas formas de pensar e agir na sociedade, que passa por transformações radicais e aceleradas, exigem o aperfeiçoamento dessa nossa capacidade de adaptação.


Como muitas pessoas têm dificuldades de conviver com as mudanças e medo de experimentar o novo, o debate sobre a adaptação está focado no desenvolvimento de habilidades para transitar à nova economia e suas tecnologias. Entretanto, a necessidade de adaptação às mudanças tecnológicas da estrutura produtiva e seu impacto nas relações de trabalho leva à subestimação do efeito dessas mudanças na relação com a natureza.


A catástrofe ambiental no Rio Grande Sul exige que essa questão da adaptabilidade volte ao leito de origem, ou seja, as novas situações, circunstâncias e necessidades decorrentes da relação dos seres humanos com o planeta. As mudanças climáticas são provocadas pela ação humana, em especial a emissão de gases do efeito estufa, liberados com a queima de combustíveis fósseis. As chuvas torrenciais no Rio Grande do Sul são uma de suas consequências.


Cientistas do ClimaMeter, liderado por pesquisadores do centro especializado em ciências climáticas da Universidade Paris-Saclay, financiados pela União Europeia e pela Agência Francesa de Investigação (CNRS), em março passado, advertiram que as ondas de calor estão 1o C mais quentes. O grupo examinou os dados meteorológicos dos últimos 40 anos, comparando padrões climáticos semelhantes no fim do século 20 (de 1979 a 2001) com os observados nas décadas mais recentes (de 2002 a 2023), quando as mudanças climáticas se intensificaram.


Descobriu-se que as depressões atmosféricas, regiões com sistemas de baixa pressão atmosférica, como a que provocou as chuvas que afetaram o Rio Grande do Sul, agora são cerca de 15% mais intensas. O El Niño, que influenciou fortemente o clima nos dois últimos anos e aumenta a precipitação no Sul do Brasil, segundo os cientistas, não é suficiente para explicar a intensidade das chuvas deste ano.


A Defesa Civil gaúcha contabilizou 126 pessoas mortas por causa dos temporais; há 756 feridos e 141 desaparecidos. Dos 497 municípios gaúchos, 437 foram atingidos pelas chuvas. Cerca de 1,9 milhão de pessoas foram afetadas, principalmente nas comunidades mais vulneráveis. A infraestrutura existente para lidar com precipitações extremas e inundações mostrou-se insuficiente neste evento, resultando no deslocamento de milhares de famílias, especialmente aquelas com menor status socioeconômico.


Há duas maneiras de encarar a mudança climática: o “darwinismo social”, segundo o qual os mais adaptados sobreviverão, mesmo que tenham que se mudar para outro planeta, ou mitigar as mudanças climáticas em escalas regional e global, para proteger vidas humanas e limitar a frequência e intensidade de eventos extremos.


Isso exige uma redução imediata das emissões de combustíveis fósseis e medidas proativas para proteger áreas vulneráveis de padrões de precipitação cada vez mais erráticos, bem como aumentar a capacidade de socorrer suas vítimas. Ou seja, discutir em termos globais e agir localmente, o que coloca a responsabilidade e a segurança ambiental no centro do debate nas eleições municipais deste ano, sobretudo naquelas cidades onde desastres naturais são recorrentes.